GABY HAUPTMANN
HOMENS NA COZINHA
MULHERES NO SOF
Traduo de
Maria Cabral da Camara
QUETZAL EDITORES
Lisboa 12003
L

Ttulo Original: Frauenhand auf Mdnnerpo
Capa de Paulo Sousa
 2000, Piper Verlag GmbH, Munique
Todos os direitos para a publicao em Portugal reservados por:
Quetzal Editores/Bertrand Editora, Lda. Rua Anchieta, 29-1.
1249-060 Lisboa Telefone: 21 030 55 00 Fax: 21030 55 63 E-Mail: quetzal@ip.pt
Reviso: Eda Lyra
Paginao: A Dentada do Rato Azul, Ida.
Impresso: Tilgrfica em Maio de 2003
Depsito legal n. 195934/03
ISBN: 972-564-566-9

Detesto supermes. E tambm detesto mulheres com carreira que conseguem fazer 
tudo ao mesmo tempo, pois nada disso  verdade, ou pelo menos, na maior parte 
dos casos  s fogo de vista. Eis ento que se tornam importantssimas e acham-
se fantsticas. Olhem, com as minhas unhas postias tenho tudo sob as garras, 
pois sou uma barra em termos de organizao. Tenho tempo para todos: a minha 
filhinha  o meu raio de sol, para o meu marido preparo uma dieta de pratos 
coreanos com base na separao esquemtica dos alimentos, trabalho diariamente o 
meu corpo, para praticar algum exerccio espiritual apanho regularmente um avio 
para um mosteiro no Nepal e os meus clientes admiram- me como
um misto bem sucedido do Dirio Econmico e da Vogue.  noite,
dedico-me, evidentemente ao bom equilbrio da minha libido.
Qual  o problema?
Interpelam todas as mulheres com quem se cruzam dizendo: "No percebo qual  o
vosso problema" e dizendo isto, retocam o batom com um ar eficiente.
9

No acreditem nisso. A h gato. 0 sucesso, a beleza, as crianas, o desporto e
o marido so certamente conciliveis. Para muitas mulheres tem mesmo de ser 
concilivel. Mas no de um dia para o outro e raramente numa semana.
Vejam o meu exemplo.
Tenho filha e namorado, consigo viver dos meus livros e escrever para a Stern. E 
 tudo. A ltima vez que fui  esteticista foi quando a minha amiga me visitou 
no hospital e me aplicou uma mscara e s h pouco tempo, ao fim de dezassete 
anos, voltei ao Karat - obrigada por uma outra amiga minha - , apesar j de ser 
cinturo verde. 0 meu cavalo anda por a em liberdade quando no pertence a 
outra que lhe oferece cenouras; nunca fao reservas de voos, porque nunca tenho 
tempo para gozar frias e em mim as unhas postias durariam no mximo uma hora, 
at eu querer voltar a agarrar nas coisas como deve ser.
Serei uma mulher com uma carreira profissional?
Acho que sim, apesar de tudo. Existem mulheres a quem no resta outra opo 
seno seguir uma carreira profissional, pois, caso contrrio, cairo na 
marginalidade.  o meu caso. A minha filha, por exemplo,  uma criana desejada 
a posteriori. Se a tivesse planeado, nunca teria tido filhos, pois no me teria 
atrevido a candidatar-me voluntariamente ao estatuto de supermulher. Frelancer, 
me solteira, predestinada ao falhano.
De nada me serve lanar olhares invejosos a pases vizinhos, onde desde a mais 
tenra infncia se podem entregar as crianas a instituies que cuidam delas 
durante o dia, sem que isso nos custe um ordenado completo. Eu vivo na Alemanha.
0 desafio estava lanado, cheio de sacrificios, para lidar com as dificuldades 
da vida. Perguntem a um homem como  que ele consegue conciliar sozinho um filho 
com a profisso, sem mulher.
No consegue,  a informao obtida em noventa por cento dos casos, acompanhada 
por um abanar de cabea admirado.
Que disparate, para isso  que existem as mulheres. Mulher, profisso e filho? 
Funciona! Se os homens no do qualquer crdito  capacidade das mulheres, pelo 
menos nisso, concedem-lho. Obrigada!
Uma vez ameacei Gerhard Schrder, num dilogo televisivo, de entrar para a 
poltica, pois talvez assim tenha a possibilidade de lutar pelas coisas que no 
s a mim dizem respeito.
Mas para isso  necessrio um lobby. Para isso  necessrio haver muitas 
mulheres jovens que se decidam a conciliar a profisso com os filhos. Que no 
estejam dispostas a fazer todas as ps-graduaes e mestrados para depois se 
deixarem despromover como engenheiras de construes com cubos para os filhos. 
Cinco anos de estudos para ficar a saber como funciona uma mquina de lavar a 
loia? Tirar o doutoramento para ter como aspirao mxima ser a me promovida e 
com uma palavra a dizer na Comisso de Pais do Infantrio?
No! Para podermos trabalhar, precisamos das condies necessrias. Infantrios 
que funcionem por turnos, com a possibilidade de servir refeies e pr as 
crianas a dormir. No funciona, dizem os homens.
Levemos os nossos rebentos e coloquemo-los sobre a mesa durante uma sesso de 
debate da Assembleia: "Esperem a um momento, que eu volto daqui a cinco horas." 
E havamos de ver se as coisas no mudavam rapidamente, se as pessoas se vissem 
de repente confrontadas com os factos e j no pudessem andar a pairar nas altas 
esferas polticas.
Depois de conseguirmos obter as infra-estruturas necessrias para o nosso 
trabalho, s precisaramos dos homens certos. Um
10
11

homem do gnero: "J sei que hoje passaste dez horas no escritrio, mas porque  
que as camas no esto feitas?" devem ser recambiados rapidamente para uma casa 
de homens. Precisamos de parceiros. No de chantagistas. E no queremos nenhum 
que nos atormente com as suas expectativas. Fizeste isto, fizeste aquilo, porque 
 que no fazes, porque  que no me deixas em paz?
Quando as mulheres jovens compreenderem que tm de encontrar o prncipe 
encantado dentro de si mesmas, j se ter dado um grande passo em frente. Nada 
de esperar pelo alto louro e rico. Est na hora de cada uma agarrar as rdeas da 
sua prpria vida! Nada de esperar por um homem que nos d todas as liberdades. 
Mas conceder-se a si mesma alguma coisa!
Mulher e carreira, mulher e profisso. Depende de ns. Depende do facto de no 
nos considerarmos a sombra de um par de ombros largos. Depende de ns constituir 
um plano de trabalho como os homens h muito nos do o exemplo.
Eles aliam-se uns aos outros, no deixam entrar visitas (femininas ou do tipo 
extraterrestre) no anunciadas, decidem quem, onde e quando entra para a 
direco, pem tudo abaixo deles. Ora, por favor!
Ns tambm temos ombros. Talvez no to fortes, mas em contrapartida mais 
flexveis, diplomticos e com melhor capacidade de adaptao s situaes. E 
alm do mais, temos um interesse comum: queremos uma profisso, sucesso, talvez 
queiramos ter um filho e possivelmente queremos um homem. Mas quem decide somos 
ns. Sobre o nosso corpo, sobre o nosso caminho e sobre os nossos objectivos.
E, quando finalmente nos apercebemos que s de ns depende ser trabalhadoras, 
tcnicas ou chefes, exigir ou ceder, se queremos ficar solteiras, casar ou ir 
viver com uma mulher, quando nos tiver
mos tornado independentes da opinio pblica, da opinio dos chefes ou dos 
vizinhos, teremos finalmente compreendido a simples afirmao:
- Eu tambm sou algum!
12
13

Um sonho
Cheirei e vi a felizdade. Foi como um feixe de raios de sol sobre a minha pele. 
0 orvalho da manha humedecia os meus ps e eu estava feliz. Felizpois o dia 
tinha comeado, a noite j estava para trs, e eu sentia, via, vivia. Tudo o que 
era, era-o agora, naquele momento. Uma aranha que deixava a teia, uma lagarta 
que se transformava em borboleta, uma formiga que largava o seu peso intil. Em 
meu redor havia vida, chilreios e Zumbidos e eu fa,<ia parte de tudo isso. 
Apenas uma parte e, no entanto, insubstituvel. Eu era eu. Que sonho.
15
HOMENS NA COZINHA,
MULHERES NO SOF

Quando ele passou por ela, apareceu-lhe um sorriso a meio da frase. Um traseiro 
daqueles era coisa que Lisa nunca tinha visto num homem. Instintivamente, 
voltou-se para ele. A sua figura, a sua postura, o seu modo de mover-se - tudo 
produzia um efeito poderoso e contudo flexvel, mais animal que homem, um grande 
gato que andava  caa.
Usa reteve a respirao. Tinha impreterivelmente de o ver de frente, no podia 
perder a oportunidade quando ele regressasse da casa de banho. Voltou-se para 
Gerold com um suspiro inconsciente. Ele estava entretido com as suas alcachofras 
e dava estalidos com a lngua, lambia-se todo e sorvia baixinho. Ela j o sabia! 
Era sempre assim! Logo que ela finalmente se decidia por alguma coisa, depois de 
muito procurar e comparar, era certo e sabido que dois dias depois, se lhe 
deparava um exemplar muito mais bonito.
Tinha sucedido isso com quase todos os seus mveis e recentemente tambm com o 
seu automvel: usado, mas por bom preo
19
IL
- e logo na semana seguinte, deparara-se com o mesmo modelo com menos 
quilmetros, mais extras e mais potncia, pelo mesmo preo. E agora aquilo!
Ela pressentira-o quando Gerold lhe enfiou o anel no dedo e se beijaram aps a 
intimao do padre. Podia realmente sentir-se isso no ar e enquanto ela sentia 
os lbios de Gerold, viu o fumo das velas diante das altas e coloridas janelas 
da igreja arreganhar-se num sorriso maldoso.
- Casa com ele, casa, que j vais ver o que te espera! - Ouviu ela os sinos da 
igreja a cantarem, ao chegar diante do porto da igreja. 0 facto de ter feito um 
olho negro  sua melhor amiga quando lhe atirou com o ramo de noiva, teve s 
mais um efeito: confirmou-lhe a convico de que as coisas viriam a ser como 
agora se anunciavam. No era culpa sua, era sempre assim, ela fizera a escolha 
errada! Agora fora o homem, que simplesmente se lhe atravessara no caminho. Como 
poderia ela agora saborear a lua-de-mel? 0 sonho transformara-se em pesadelo. J 
no podia ir para a cama com Gerold, ele era o homem errado!
Lisa beberricou inquieta do copo de vinho tinto, enquanto observava o marido com 
quem acabara de se casar. Ele ainda chupava e sugava entusiasticamente a sua 
folha de alcachofra, sentiu o seu olhar, ergueu o dele e piscou-lhe um olho.
-j me estou a treinar...
Lisa estremeceu, no mesmo instante ouviu a porta atrs dela. O restaurante do 
hotel onde passavam frias no era grande, ele tinha de passar pela mesa deles. 
Ela deixou cair o guardanapo e depois voltou-se para trs. Ele vinha direito a 
ela. Sentiu o sangue latejar. Da a nada j ele se inclinaria para lhe apanhar o 
guardanapo e acabariam por l chegar ao mesmo tempo.
20
Que dizia ela com <d chegar"? 0 que lhes aconteceria  que ficariam suspensos, 
cheios de desejo, no xtase da expectativa. Mas ele no lhe concedeu sequer um 
olhar, passou por ela com um ar decidido e desapareceu ao fundo do restaurante. 
Ela ficou de olhar fixo no seu traseiro de jeans, muito depois de ele lhe ter 
desaparecido da vista.
- 0 que achas, querida, vamos andando l para cima?
A mo de Gerold pousou na dela.
- Como? 0 qu? Mas isto ainda era s a entrada...
Gerold sorriu-lhe com um ar conspirador.
- Julguei que como preldio da lua-de-mel e do casamento, podamos passar j  
ementa. - Ele baixou a voz: - Primeiro, deleitamo-nos com a entrada, depois, 
lentamente, o prato principal e, por fim, a deliciosa sobremesa.
Lisa olhou-o nos olhos. A ris tinha um tom indefinido de cinzento lodo, a 
cabea demasiado redonda, o cabelo demasiado claro. Tudo nele era humano, no 
havia o mnimo vestgio animal. A pantera chegara demasiado tarde. Como 
sobreviveria ela a isso!
- E que tal um prato principal furioso? - perguntou ela abatida, agarrou na 
garrafa com o pesado vinho tinto e serviu-o.
- Por mim tudo bem, desde que tu faas parte do prato principal!
Lisa bebeu de um trago o contedo do copo e perguntou a si 1a rpria se a 
pantera estaria no hotel sozinha ou acompanhada. Ela descobri-lo-ia, pois:
- Eu sou o pitu dos deuses - deixou ela escapar.
-Isso sei eu e estou a sabore-lo. -Gerold acenou-lhe afirmativamente com a 
cabea, enquanto agarrava em mais uma folha da alcachofra.
21
L

Na sua imaginao Usa descobrira um segundo nvel. Naquela noite dormiu duas 
vezes com a Pantera. Com "dormiu" queria dizer: ele compensou-a do seu erro, 
mordeu-a no pescoo e brincou com o lbulo da orelha, enquanto o mpeto agitava 
o seu baixo-ventre. Quanto ao furaco, reserv-lo-ia para o momento em que o 
conseguisse agarrar em pessoa com as suas prprias mos.
Ergueu-se mais cedo que o habitual. Gerold limitou-se a abrir um pouco os olhos, 
mas voltou a puxar o lenol branco sobre os ombros claros.
- Vou nadar um pouco - avisou Lisa e decidiu-se por um fato de banho preto. Este 
favorecia-lhe a figura e disfarava os pneus da barriga. Alm disso, 
acrescentava um tanto ou quanto o peito, com um fino forro de espuma. Com vinte 
e cinco anos era permitido ajudar um pouco a natureza.
Curiosa, deixou o pequeno bungallow. 0 sol espanhol j atrara bastantes 
veraneantes, a maioria das cadeiras de descanso da piscina j estavam ocupadas. 
Lisa pousou a toalha sobre um pequeno muro de pedra, passou-se rapidamente por 
gua e olhou disfaradamente em volta. Seria ele por acaso um dorminhoco? A 
libido dela manifestava-se no seu melhor, de manh. Ou j se teria porventura 
ido embora? Isso seria imperdovel.
Entrou devagar na gua e decidiu aguardar. Queria a todo o preo v-lo em fato 
de banho. Seria peludo? Seriam os msculos do peito to salientes como 
aparentavam na vspera? Vibrariam as coxas quando ela as percorresse de baixo 
para cima com as unhas? Teria mais que uma mo cheia de virilidade? Lisa quase 
nadara at ao xtase quando uma alta e elegante ninfa num reduzidssimo biquni 
surgiu no seu campo visual. Estava na borda da piscina e testava a temperatura 
da gua com o seu enorme dedo grande.
22
Lisa engasgou-se no seu fato de banho, pois atrs dela surgia a pantera. Trazia 
um fato de banho preto a condizer com os espessos cabelos pretos e os escuros 
plos da barba por fazer que cobriam o queixo anguloso com uma pequena fenda. 
Lisa viu o seu peito musculoso, a barriga firme e as largas coxas, depois chegou 
 borda da piscina e teve de dar meia volta. Sentia o sangue latejar nos ouvidos 
e reflectia convulsivamente no modo como poderia conquist-lo.
Observou-o a colocar duas cadeiras de descanso bem juntas ao lado uma da outra e 
a estender as toalhas. Pouco depois descobriu uma oportunidade: a esbelta 
criatura dirigiu-se a correr para a piscina e dando um salto mergulhou de cabea 
na gua e ele sentou-se de pernas abertas na cadeira de descanso para a 
contemplar.
Impressionante, qual Bo Derek, Lisa emergiu da gua diante dos olhos dele. 
Avanou directamente na sua direco, encolhera a barriga e esticara o peito, 
movia voluptuosamente a anca a cada passo que dava, penteou com a mo, num gesto 
estudado, para trs, o cabelo molhado e de comprimento mediano, e no se dignou 
olh-lo, enquanto passava rente a ele. Estupidamente a sua toalha ficara do 
outro lado da piscina, pelo que se deteve alguns passos atrs dele voltando-se 
na sua direco. No parecia ter surtido efeito, como se ele apenas se tivesse 
apercebido muito vagamente da sua passagem.
Fascinado, olhava fixamente para a piscina e agora ele tambm se erguia. Deu 
dois passos e deslizou para dentro de gua como se fosse o seu elemento.
Avidamente Lisa observou-o a mergulhar passando pela sua parceira e voltando 
para o p dela, rindo alegremente. Se ela agora fosse para dentro de gua, 
partilharia, pelo menos, o mesmo elemento que ele, pensou Usa. E com um pouco de 
sorte, talvez tam
23
L
bm chegassem ao contacto fsico. Ela voltou a descer as escadas da piscina e 
atirou-se  gua.
Lisa nadou energicamente para l e para c, mas no conseguiu aproximar-se dele. 
No era possvel alcan-lo. Ora o via aqui, ora ali, na maior parte das vezes, 
mergulhando como um golfinho. Finalmente sentiu-se sem foras e saiu. Exausta, 
sentou-se no muro e observou, como todos os outros, a dana amorosa que ambos 
executavam na gua. Depressa se apercebeu que aquela magra e frgil criatura, 
aquela modelo magra que nem uma varinha, no tinha quaisquer hipteses contra 
uma mulher a cem por cento como ela. S precisaria de uma boa oportunidade.
Quando Gerold, inesperadamente, surgiu por detrs dela, Lisa sentiu-se quase 
assediada. Do mesmo modo, a sua oferta de lhe aplicar o leite solar pareceu-lhe 
demasiado profana. Aquele homem alm, faria com que ela se sentisse inundada por 
uma luz resplandecente como a do sol ou, de noite, como se as estrelas cadentes 
se pulverizassem sobre o seu corpo nu. Banh-la-ia num mar de paixes, fazendo-a 
sentir-se sem peso, esquecida de si, enfim, numa orgia profunda. Fugiria com ela 
noutra dimenso, na dimenso do amor consumado. Lisa inspirou profundamente. E 
eis que Gerold lhe queria pr creme nas costas! Com factor de proteco 20. Como 
se ela fosse uma extraterrestre lvida, prestes a transformar-se num sapo 
escaldado.
Mas Gerold no desistia facilmente e enquanto Lisa procurava convenc-lo a mudar 
de ideias, analisava, com uma certa averso, a sua pele clara salpicada por 
inmeros sinais escuros, os esparsos plos e o peito pouco saliente. Era 
evidente que dissera "sim" demasiado cedo. Cara de novo na ratoeira.
Nessa mesma noite delineou uma estratgia. Enquanto Gerold dormia com ela, 
estabeleceu os pontos um por um, ordenando
24
-os cronologicamente. Parecia-lhe impossvel de responder  pergunta sobre como 
reagiria Gerold quando fosse confrontado com o facto consumado. Mas como o mais 
provvel era isto acontecer no fim de tudo, de momento poderia deixar a pergunta 
em suspenso. Gerold atingiu ruidosamente o orgasmo, enquanto lisa pensava que o 
seu novo amante tambm poderia encarregar-se do assunto, dispensando-a de uma 
constrangedora despedida. Dormiu profundamente e sem sonhos, mas no dia seguinte 
da manh cedo, j estava pronta.
Desta vez colocara a sua cadeira de descanso no mesmo lugar onde a pantera 
estivera na vspera. Estendeu-se ao sol matinal e aguardou. Quando ele 
finalmente chegou, era quase meio-dia e ela estava prestes a apanhar uma 
insolao. Tinha justamente acabado de pedir a Gerold que lhe fosse buscar um 
sumo fresco. Naquele dia abdicara do pequeno-almoo.
Agora via que o seu timing estava perfeito. Mal Gerold dobrara a esquina no seu 
fato de banho colorido tipo boxers, a pantera vinha na sua direco. Presenteou-
o com um olhar lnguido e lascivo, e ele, sem parecer ter-se apercebido disso, 
cruzou as pernas indolente, mas prometedoramente. Ao que ela roou com a sola do 
p a canela da outra perna, lenta, mas eroticamente.
Tal como na vspera, ele juntou duas cadeiras de descanso. Lisa observava-o pelo 
canto do olho. Ficaria estendido, no mximo, a uma distncia de quatro metros 
dela. As suas expectativas comeavam a dar certo. Estendeu a mo para o frasco 
do leo bronzeador. Agora besuntar-se-ia com todo o deleite, at lhe salpicar as 
calas e no lhe restar outra alternativa, seno oferecer-se para a ajudar 
quando fosse a altura de besuntar as costas.
Mas enquanto despejava leo quente na palma da mo, apercebeu-se por meio de um 
rpido olhar na sua direco, que ele
25
no seguia as regras do jogo: deitara-se desnecessariamente para o lado errado. 
Agora, a quatro metros de distncia dela, encontravam-se estendidos ao sol, os 
ossos da sua rival. Lisa deixou-se cair por alguns instantes, antes de voltar a 
endireitar-se.
Quando Gerold veio e lhe props participar numa excurso organizada para 
explorar o pas e a sua gente, o seu plano foi por gua abaixo. Lisa no queria 
explorar nada mais para alm do objecto do seu desejo, que se encontrava 
praticamente a seus ps, nem que fosse apenas em termos visuais. Tambm os 
vizinhos do lado pareciam estar a discutir, Lisa fingiu sentir-se indisposta, 
esperando que Gerold a deixasse em paz. E tambm, que ele fizesse a excurso 
sozinho.
0 seu desejo realizou-se. No entanto pouco depois, a sua pantera foi requisitada 
por animadores para um jogo de voleibol de praia. Sentada junto  linha 
limtrofe do campo de jogo, Lisa no tinha olhos seno para ele. Saltava mais 
alto que todos os outros, arrancava e disparava mais rpido do que se podia 
esperar, as suas bolas eram inatingveis. Lisa j se imaginava na sua pele 
morena como se pudessem partir dali a voar como guias.
Quando Gerold voltou  noite e lhe contou, entusiasmado, sobre a sua excurso, 
ela s lhe prestou meia ateno. Para ela apenas contavam os encontros com o 
estrangeiro, pelo que no se importou nada que Gerold sasse durante os trs 
dias seguintes, nem que tivesse tanto para contar, de modo que no pareceu 
aperceber-se da indiferena de Lisa a seu respeito. Lisa pde entregar-se sem 
reservas s suas fantasias e concentrar-se nos encontros com o homem dos seus 
sonhos.
Ela planeava e congeminava e descobriu que tinha boas hipteses pois tambm a 
amiga da pantera parecia estar a viver o seu prprio programa de ocupao dos 
tempos livres, de forma que
26
Lisa ousava aproximar-se cada vez mais dele, e de formas cada vez mais 
provocantes.
Nessa tarde, mal Gerold se dirigira sozinho para o campo de tnis, avistou-o na 
praia. Alugara uma prancha de surf e saltara-lhe em cima. Lisa sentou-se na 
areia e seguiu-o com o olhar, analisava-lhe uma vez mais o corpo, admirava a 
elasticidade de animal de rapina, os msculos que se lhe salientavam nitidamente 
sob a pele, o jogo varivel dos tendes, a leveza, o modo como ele dominava a 
gua e o vento. Ela deixou-se cair para trs, enterrando-se nostalgicamente na 
areia quente, cerrou os olhos, passou ternamente com a mo sobre os finos e 
quentes gros de areia e imaginou-se a acarici-lo. De sbito sentiu uma sombra 
sobre o rosto. Assustada, abriu os olhos.
Ele estava diante dela. No, no estava a sonhar, era realmente ele!  beira de 
um ataque cardaco, viu-se perante o seu objectivo. Ele vira-a, decidira-se por 
ela, desejava-a, ainda nessa mesma tarde mergulhariam, totalmente brios de 
paixo reprimida, nos braos um do outro! O corao disparou-lhe que nem um 
louco quando ele se acocorou. Lentamente, ela ergueu-se, encolheu a barriga e 
fez-lhe um sorriso radioso.
Agora! Agora, ele ia declarar-se!
Ele pigarreou. Lisa susteve a respirao.
- No queria incomod-la - disse em voz baixa que soou altamente ertica, de tal 
modo que Lisa sentiu um arrepio pelas costas abaixo e a sua libido a despertar 
com uma intensa vibrao.
- No me incomoda nada - replicou ela em voz sumida. Ia experimentar o orgasmo 
da sua vida, sobre o qual as revistas femininas passam a vida a escrever: a 
pequena morte. Ela estava prestes a passar por isso.
27

- Acho que tenho de lho dizer, voc tem direito a sab-lo!
Sim, di-lo gritavam todos os sentidos dentro dela. DiZ queprecisas de mim, que 
me queres, que me des jas, que j no podes viver sem mim, dia que me queres 
aqui mesmo e neste preciso momento, que eu f-lo-ei!
- Sim? - ouviu-se dizer a si mesma, deixando-se descair um pouco para trs a fim 
de que o seu peito opulento produzisse melhor efeito.
-j h trs dias que dei por isso. Acho que est na altura de voc tambm ficar 
a sab-lo!
- Sim, faa o favor! - Ela deu  voz uma entoao de feminilidade mpia, 
exactamente o timbre que considerava como sendo altamente aliciante e 
estimulante.
- Pois bem, espero que no se aborrea muito com isso!
- No, de modo nenhum, com certeza que no me vai aborrecer! Pode dizer-me tudo 
o que quiser!
- Talvez no, pois afinal de contas, voc est em lua-de-mel! Bem... - Ele 
pigarreou de novo e olhou-a directamente nos olhos. - 0 seu marido dorme com a 
minha namorada. Ela confessou-mo ontem. Tudo comeou numa excurso h trs dias. 
Parece que ele tem alguma coisa que eu no tenho. Ela falou-me do melhor orgasmo 
da vida dela. Eu achei que voc devia ficar a saber isso antes de eu me ir 
embora.
Lisa estava de boca aberta.
- Estou pasmada - tartamudeou ela, depois deu um murro na areia, - Isto  o 
cmulo! Que nojo de homem!
Os lamurientos
Existem pessoas que se esto sempre a lamuriar ueixam-se porque engordaram e 
agora as calas novas j no lhes servem. ueixam-se porque emagreceram e agora 
ficaram com rugas na cara. E queixam-se de no conseguirem perder peso, pois 
isso sign f ca que nada, mas absolutamente mais nada, acontece nas suas vidas. 
Ouvimos longas histrias de sofrimento, enquanto damos volta  cabea para 
encontrar alguma soluo. A dado momento, queremos ajudar, mas tudo se revela 
totalmente inoportuno, cada proposta  refutada por um "mas...".
- Anda, vamos comprar umas novas calas para ti!
- Mas assim habituo-me ao meu peso, quando o que eu quero mesmo,  emagrecer.
- Ento trata simplesmente de emagrecer...
- Mas isso  que eu no consigo! - Os lamurientos podem levar uma pessoa ao 
desespero.
- Olha como ainda estou plido...
- Ento vai apanhar um pouco de ar fresco, gota o sol
- Mas sempre que apanho sol, apanho logo um escaldo!
- Ento pe creme!
- Mas isso deixa-me apele toda gordurosa. No gosto nada disso! - Os lamurientos 
tornam-se solitrios para depois se queixarem da solido. A certa altura, acabam 
por ser substitudos por animais de estimao. Os ces e os gatos certamente que 
tambm teriam muitas rates de queixa, mas pelo
menos ficam calados.
28
29
r
Para mim era bvio que tinha melhor aparncia que os outros rapazes da minha 
idade. Tambm era mais inteligente, o que talvez se devesse ao meu quociente de 
inteligncia, ou  herana gentica que recebera dos meus pais. Para alm disso, 
no recebi grande coisa deles, pelo menos do meu pai. A ele, nem o cheguei 
sequer a conhecer.
A minha me tentou compensar esta lacuna, mas trabalhava muitssimo, pelo que 
estava bastante ausente. Era muito bonita, muito alta e extraordinariamente boa 
em tudo o que fazia. Era tambm um pouco impulsiva. Recordo-me de ela ter dado 
uma sova to brutal num tipo que se aproximou demasiado de mim, ou por 
curiosidade ou talvez com intenes estranhas, que ele andou vrios dias com 
problemas nas costelas.
Lembro-me como se fosse hoje, do imenso orgulho que tinha dela naquele tempo.
Olhvamo-nos nos olhos e eu dizia:
- Mas que grande sova que deste quele!
IL
33
E ela sorria, com um ar muito senhor de si:
- Sabes, Anton, pura e simplesmente no suporto esses maricas!
Quando o horrio das reunies dela no era muito apertado, eu podia acompanh-
la. Essas eram ocasies extraordinrias, de certo modo, privilegiadas. 0 
automvel, em que nos deslocvamos naquele tempo, era extremamente exclusivo. 
No sei como hei-de diz-lo de outra forma, mas era, de longe, o automvel maior 
e certamente tambm o mais caro que se podia arranjar. 0 nosso chauffeur estava 
um pouco apaixonado pela mam.
Lembro-me bem de ele se estar sempre a tentar insinuar junto dela, para ele nada 
era demasiado caro, nada era excessivo, nada era banal. E ele no era o nico. 
Por toda a parte, onde quer que ela fosse, era cercada de admiradores. Mas tinha 
uma maneira de levantar a cabea e, num abrir e fechar de olhos, os aduladores 
eram logo reduzidos  sua insignificncia. Era certamente devido  sua beleza 
aprumada que eles estavam sempre atrs dela. No me admirava nada que assim 
fosse.
Quando estvamos juntos, eu saboreava cada segundo na companhia dela. Era 
ardente, amorosa e maternal, brincava comigo de uma forma deliciosa e  noite 
dormamos aconchegados um contra o outro. A seu lado sentia-me protegido, ela 
contava-me coisas simples e complicadas da vida e ramos e trocvamos carcias.
Mas o tempo passou e quando me vi confrontado com a palavra "trabalho", soube o 
que acontecera: j no era nenhuma criana, tinha de encontrar o meu prprio 
caminho.
Observava os meus colegas de brincadeiras a uma certa distncia. Brigavam e 
batiam-se todo o santo dia, como se no existisse nenhuma outra ocupao mais 
conveniente.
Mas talvez eles quisessem apenas impressionar Waleska. Encontrava-se a uma certa 
distncia, encostada a uma rvore, olhando para eles.
Eu admirava-a. Era a mais bonita de todas as raparigas, apesar de no se poder 
comparar com a minha me, nem na beleza, nem no porte. Mas tambm ainda era 
jovem, achava eu e, alm disso, nem toda a gente se podia gabar de ter uma me 
que era uma estampa. Mas ainda assim, j nessa altura, ela dava a entender, pela 
sua expresso e modo de reagir, um tal aborrecimento ao observar os meus 
companheiros que eu me dava por muito feliz de no fazer figura de idiota a seus 
olhos.
Eu observava-a secretamente e algum tempo depois, apercebi-me que ela ficara 
inquieta. Provavelmente apercebera-se do meu olhar. Obriguei-me a olhar noutra 
direco ou, pelo menos, a pensar noutra coisa, mas sentia-me, como que por 
artes mgicas, atrado por ela. Isso nunca me acontecera com tal intensidade.
Eu estava no meio do prado, profundamente absorto nos meus pensamentos. Ainda 
no se passara muito tempo, desde a poca em que preferia passar cada hora que 
podia junto da minha me. Depois tive de ser educado no sentido de me preparar o 
melhor possvel para enfrentar as adversidades da vida e com isso senti 
terrivelmente a falta da minha me. E agora, de repente, inesperada e 
imprevisivelmente, o meu pulso acelerava-se e mais sei l o qu, s porque 
avistava Waleska.
Aquilo era extraordinrio, uma percepo totalmente nova. E foi ento que me 
apercebi: definitivamente, eu j no era nenhuma criana. Pelos vistos um pouco 
cedo, mas os sinais estavam todos l. De ar pasmado e desejos estranhos, tal 
como a minha me me descrevera. 0 ar pasmado j se instalara h mais de uma
35
34
hora, os desejos estranhos acabavam de se insinuar. Sentia-me suar frio.
Comecei a reflectir na forma mais eficaz de estabelecer contacto com Waleska. 
Deveria ir ter directamente com ela? Dirigir-lhe a palavra? Diante dos olhos dos 
meus companheiros isso seria fatal!
Eu no podia sujeitar-me a tornar-me o alvo de troa por dirigir a palavra a uma 
rapariga. Isso era coisa que os rapazes da minha idade no faziam assim, sem 
mais nem menos. As raparigas tinham de ser consideradas umas estpidas e quem 
tivesse outra opinio, era um maricas.
Por outro lado, era uma estupidez ter de fazer sempre o mesmo que os outros. 
Desde pequeno que a minha me me incutira o individualismo. No te deixes 
arrastar pela opinio da maioria, s tu prprio, escuta-te a ti mesmo, e vers 
com clareza quem s e o que queres. Isso j ela me ensinava numa idade em que os 
outros ainda se pasmavam com a observao de joaninhas e malmequeres.
Foi mesmo assim. No foi por acaso que a minha me chegou to longe. Ela sempre 
se esforou por cultivar essa faceta e dar-me o exemplo de que se podia obter 
muita coisa se se quisesse mesmo e pela qual se lutasse.
No entanto no me conseguia decidir. Continuava como que pregado ao cho, 
voltava-me ligeiramente para um lado e depois para o outro, mas no tinha a 
menor vontade de me ir embora. Quem me podia garantir que no dia seguinte nos 
voltaramos a ver to de perto. Restava saber se ela voltaria no dia seguinte.
S podamos contar com o Sol, dizia-me sempre a minha me. A gua podia acabar, 
os campos secarem, os animais morrerem de fome, as pessoas irem pelos ares, 
amanh talvez no existisse mais nada - s o Sol l estaria, o Sol e a sua 
amiga, a Lua, que gravitavam sempre em torno um do outro e, no entanto, nunca se
alcanavam. Como os grandes amores, filosofava ela, enquanto eu comeava a 
adormecer.
Os grandes amores eram sempre aqueles que no se realizavam, explicava ela 
ento, baixinho, pois a saudade transfigura tudo. As coisas adquirem uma nova 
perspectiva, os segundos transformam-se em eternidades, um breve encontro 
termina num arrebatamento de felicidade. Tudo  indescritvel enquanto a 
esperana for alimentada.
Quando o dia-a-dia mata a esperana, os sentimentos esmorecem aguardam uma 
libertao, procuram um novo objectivo. Eu perguntava-me se ela tinha razo, mas 
tambm no podia afirmar nada em contrrio, ainda no tinha experincia alguma, 
era, pura e simplesmente, demasiado jovem.
Olhava para Waleska. A sombra da rvore sob a qual ela se encontrava, j se 
alongara. No tardava nada estaramos a ser de novo chamados ao trabalho. Eu 
tinha de tomar uma deciso. Talvez ela se fosse embora antes de mim, e nesse 
caso, fosse como fosse, estaria tudo perdido. Dei um passo indeciso em frente, 
mas depois acabei por ficar parado de novo.
Ela parecia indescritivelmente bela dali, onde se encontrava. A cerejeira estava 
carregada de flores e raios de sol isolados incidiam-lhe sobre os cabelos, que 
tinham um brilho sedoso. Fosse como fosse, ela no era como as outras. Tinha um 
ar mais maduro, assumido, como se j soubesse exactamente o que se podia esperar 
da vida.
Em que estaria ela a pensar naquele momento? E se ela ainda ali estivesse, por 
me ter descoberto h muito tempo? Quem sabe se ela at no esperava que eu desse 
o primeiro passo?
Olhei em volta para os meus companheiros, que se tinham afastado um pouco. Mas 
ainda no se tinham cansado das suas tolas
37
36
fanfarronices. De repente, senti-me incrivelmente superior a eles e tambm 
espantosamente adulto. Agora iria tentar a minha sorte, a minha me tinha razo. 
S os individualistas encontravam o seu caminho, para isso era necessrio ter 
coragem e agora daria uma prova de que a possua.
Preparava-me justamente para ir ter com Waleska, quando ouvi chamar o meu nome 
em voz alta. Hesitei, depois dei meia volta.
Que estupidez, hesitara tempo de mais. Anika encontrava-se junto da vedao com 
um cabresto e acenava-me com uma cenoura. Contra aquilo no havia argumentos. 
Bem, ento teria mesmo de adiar o assunto para o dia seguinte.
Olhei mais uma vez para Waleska e pela primeira vez ela concedeu-me um olhar, ao 
mesmo tempo que inclinava a cabea para trs. Balbuciei qualquer coisa,  laia 
de despedida e parti a correr, consciente da sua ateno, e galopei numa 
perfeita imitao de um jovem garanho, atravs do pasto, na direco de Anika.
Ideias
Feliz daquele que tem uma ideia com a qual domina o seu meio ambiente.  
incrvel, mas existem criadores de ideias que primeiro se vem obrigados a 
defrontar-se com toda a espcie de contratempos. Toda a gente  informada, 
convidada, consultada e inquirida para se pronunciar sobre a ideia. Cada um d 
tratos  cabeia, reflecte se a pessoa que teve a ideia,  capa .Z de pr a ideia 
em prtica, para depois se deixar convencer pelo amigo, que  um cptico de 
primeira, descu pa-se, acredita no amigo e no v nenhum progresso. "Ento, 
aquela ideia j foi posta em prtica?" pergunta ele, seis meses depois, para 
ouvir dizer que era, de facto, uma ideia especialmente boa, que precisava de 
tempo para ser desenvolvida e posta em prtica. Depois, apouco e pouco, cai no 
esquecimento, at que suja uma nova ideia, que venha cair que nem um turbilho 
sobre a mesa das negociaes. A ideia anterior, at que tambm era boa, no 
havia dvida, mas esta aqui  incomparvel. Assim todos arrebitam as orelhas, 
achando a ideia fantstica, identificando-se, pensam na sua realizafo e 
descontraem. E se ainda no estiverem mortos, estaro pelo menos a reflectir que 
muitas ideias s podem ter xito se nunca forem postas em prtica.
39
38
FRENTE A FRENTE
Algumas pessoas passam por isto, outras no. E quando acontece, na maior parte 
das vezes  aos outros que sucede. Ou nos filmes. Ou no  verdade?
Fiquei literalmente irritado quando fui recebido  porta de casa da minha 
namorada, da minha prpria namorada, por um tipo que me veio abrir a porta. 
Naquele preciso momento ela estava no duche, informou ele, numa espcie de 
saudao, mas provavelmente estaria quase pronta, pois afinal de contas, estava 
 minha espera. Eu vira-o uma ou duas vezes, mas tinha apenas uma vaga ideia 
dele.
Agora pude reparar em todos os seus pormenores. Tinha cabelos escuros, era alto, 
mais alto que eu - seria ele, por acaso, o gnero dela? Descontrado, precedeu-
me em passos pesados pelas escadas acima, indo direito  cozinha. Ainda havia um 
resto de vinho branco que podia tomar, se me apetecesse, informou-me com um 
olhar por cima do ombro. Quem havia de matar, ele ou ela? Queria abrir a porta 
de um dos armrios da cozinha, mas fui imediatamente
43
corrigido: os copos apropriados para aquele vinho, estavam acol. Abriu uma 
outra porta, estendeu-me um copo, retirou a garrafa do frigorfico, que estava 
literalmente vazia, passou diante de mim em direco  varanda inundada de sol.
Ali sentou-se, sorrindo-me com ingenuidade. At que ponto  que um tipo pode ter 
um sorriso ingnuo, enquanto a minha namorada est no duche? E por que razo 
estaria ela no duche agora, naquele preciso momento?
Reflecti que medidas poderia eu tomar. Atir-lo da varanda abaixo? Mas era 
demasiado alto e pesado para isso. Dar-lhe com a garrafa na cabea? 0 problema 
era o mesmo. Expuls-lo de casa? No era a minha casa, mas a da minha namorada. 
Teria eu direitos ali? E em caso afirmativo, quais?
Da varanda olhvamos para a rua. L em baixo estavam duas motos lado a lado. Uma 
era dele, explicava-me o meu vizinho. Eu passava-o em revista. E depois  moto 
dele. Era menos potente que a minha. Pelo menos um pouco menos. Seria ele bom na 
cama? Melhor que eu?
Afinei o ouvido na direco do quarto de banho, mas no consegui ouvir nada. Ela 
j a vinha, dizia ele, afinal de contas j estava h tempo suficiente debaixo 
de gua. Como podia ele responder a uma pergunta que eu no fizera?
S ento me lembrei de Grnemeyer. Ser que as pantufas dele tambm j l 
estariam e ela se preparava para me anunciar, acabada de sair do duche, que 
acontecera durante um encontro de motoqueiros em que eu participara 
apaixonadamente h trs dias em Frana, mas que se prolongara por muito mais 
tempo? Afinal de contas, no era verdade que outros motoqueiros tambm 
procuravam um cantinho para viver?
Procurei no me deixar levar pelos meus pressentimentos. Deveria agora ousar 
armar-me em ciumento perante este tipo? 0 que quer dizer armar-me: eu estava 
cheio de cimes. Morto de cimes.
Entretanto, ele perguntava-me, se eu estava com fome. Ainda sobrara alguma coisa 
do almoo.
- ptimo - disse eu, - Ela cozinhou? - Sabia perfeitamente que ela no sabia 
cozinhar. Ou no queria. Pelo menos, no para mim. Ele riu e encostou-se  grade 
de ferro da varanda.
Raramente me aconteceu desejar tamanha runa como o fiz naquele momento em 
relao quelas paredes. S queria que ele se precipitasse com a balaustrada no 
abismo que era o lugar que lhe competia. Espalmado em cima da maldita da moto 
dele, que mais no era que um meio de exibio. As coisas nem sempre so o que 
parecem.
Perguntei-lhe ento o que havia para o almoo? Respondeu que apenas qualquer 
coisa rpida. 0 que houvesse no frigorfico. Osso buco.
Agora achava finalmente que podia ter razo. Nunca naquele frigorfico esteve 
algo parecido com osso buco. Em todo o caso, no nos ltimos dois anos.
Estava na hora de uma conversa entre homens, enquanto ela ainda estivesse no 
duche. Reflecti como devia inici-la. "Vocs j? Vocs esto? Ela j?"
Estvamos sentados frente a frente, naquela minscula varanda de subrbios e eu 
no sabia como entabular a conversa. Alm disso, haveria por acaso algo mais 
inspido que uma varanda de subrbios com vista sobre duas motorizadas alinhadas 
lado a lado, apesar de ser certo e sabido que no se podiam suportar uma  
outra? Que no se podiam nunca suportar!
45
44
- Ento aonde  que vocs vo? - inquiriu, afastando um caracol da testa. 
Caracis num tipo. Uma coisa j de si suficientemente horrorosa. Mas a pergunta 
ainda conseguia ser pior que os caracis.
- Como? - retorqui, preparado para tudo. Quereria ele ir ter
connosco? Ou vir j connosco?
- Uma vez que ela se est a demorar tanto. Com certeza est a
arranjar-se toda. - Ele fez aquele sorriso que os homens fazem quando as 
mulheres se enfeitam.
Mas que raios tinha ele com isso, com o tempo que ela levava para se arranjar e 
com que finalidade? Agora queria sab-lo e levantei-me. Queria perguntar-lhe a 
ela, mas ele pareceu interpret-lo mal. Ou ento interpretou-o correctamente e 
queria impedi-lo.
- Deixa estar - disse e levantou-se tambm.
- Como? - perguntei.
Ele era, com efeito, mais alto e a varanda era estreita e pertencendo a um 
segundo andar mas de um edifcio antigo, era suficientemente alta. Seria 
possvel que sobrevivesse a um embate aps uma queda de cabea? Esperava que 
no, pelo menos no caso de ser ele a cair do parapeito abaixo. E eu que ainda 
nesse mesmo dia de manh acordara com ideias to pacficas. Voltei a sentar-me e 
ele trouxe mais uma garrafa de vinho.
- Parto do princpio que ela no tem nada contra - comentou. - Ela nunca se ope 
a nada.
Aquilo fez-me dar um salto da cadeira. Aquilo no deixava espao para dvidas!
-j que ests de p - disse ele - traz um saca-rolhas. Est... - Eu sei onde 
est - atirei-lhe.
Pelo menos disso tinha a certeza. E que a minha namorada
estava no duche, isso tambm eu sabia. Enquanto abria a gaveta
certa na cozinha, reflectia sobre a situao. T-la-ia negligenciado?
46
Ter-me-ia descuidado com as carcias? Fora isso, pensei para com os meus botes 
e retirei o saca-rolhas da gaveta. De certo modo tinha-me desleixado.
Ao princpio tinha querido senti-la a toda a hora bem perto de mim, beij-la ou 
brincar carinhosamente com a sua orelha. Era evidente que estvamos deveras 
apaixonados um pelo outro, escorregando dos bancos abaixo de tanto nos 
beijarmos. Mais tarde ela tambm ficava satisfeita sem grandes demonstraes de 
amor. Ficvamos horas a fio em restaurantezinhos e tnhamos sempre tema de 
conversa. Depois chegou uma altura em que nos bastava ficar a ver os outros 
pares a conversar.
E, era verdade, j h bastante tempo que no a surpreendera com nenhuma ideia 
amorosa. Possivelmente agora era ela que me surpreendia. De uma forma, na 
verdade, pouco amorosa, mas que talvez fosse compreensvel.
Voltei para a varanda com sentimentos contraditrios. Ele sorriu-me e estendeu-
me a mo. Apesar do meu bom senso, ter-lhe-ia espetado de bom-grado o saca-
rolhas num certo stio, mas estendi-lhe o instrumento. Ainda por cima, de um 
forma educada, com a ponta voltada para mim. E se ele s tivesse estado  minha 
espera para me atirar da varanda abaixo? De cabea para baixo e com um saca-
rolhas na barriga? E se ela j se encontrasse h que tempos cada e morta no 
duche?
Quem era ele afinal de contas? Osso buco. No seria isso suficientemente 
revelador? No frigorfico dela?
Preparava-me para o ataque, quando ele me ofereceu um cigarro. A mim! A um no 
fumador, em casa de uma no fumadora.
- Na varanda  permitido - disse ele e sorriu, tirando um cigarro para si 
prprio, que acendeu depois de eu ter declinado a oferta.
47
Com que ento, na varanda  permitido. Das duas uma, ou ele era descarado e 
inofensivo ou esperto e perigoso, mas tambm era possvel que ele s estivesse 
l, quando eu no estava. Como nos ltimos dias, por exemplo. 0 que aconteceu 
com demasiada frequncia nas ltimas semanas. 0 render da guarda na varanda. Um 
ltimo cigarro, nem queria pensar nisso. Se acaso o suportasse, teria estendido 
a mo para pedir um naquele momento.
Portanto senti-me completamente desamparado, sem o conforto de um cigarro, 
enquanto, a pouco e pouco, me afundava no desespero. Mesmo sem cair da varanda 
abaixo, caa inexoravelmente num abismo. Em breve ficaria soterrado sob os 
escombros do nosso amor.
Como ele ergueu o olhar, fiz o mesmo. Ela dirigia-se para a varanda, de roupo e 
com a cabea envolta numa toalha.
- Eh, j c ests! - disse e beijou-me a rir. - Fantstico! Nunca pensei que 
viesses to cedo!
Os olhos brilhavam-lhe enquanto me abraou entusiasticamente. Diante dele! Na 
varanda que nos juntara frente a frente. Isso era evidente! Estava aliviado e 
feliz e decidi modificar tudo. E antes de mais, decidi confiar nela, mesmo sem 
saber ao certo quem ele era.
48
Discursos
A maiorparte dos discursos cometam com um pedido de desculpas e levantam quase 
sempre a questo de saber como  que uma pessoa que ao que parece no tem nada 
para dizer, nem sabe falar, consegue falar durante horas sem dizer nada. Um 
fenmeno tambm conhecido do mundo da poltica. S que, neste caso, ningum pede 
descu pa, apesar de, muitas vetes, at fosse conveniente fa.Z-lo. Assim 
percebemos por que motivo as salas das sesses plenrias se encontram tantas 
vezes s moscas e por que rato todos os convidados soobram num marasmo 
profundo, mal algum se levanta e comea a falar. Depois o passado  repisado e 
contado o que quase toda agente j sabe. A cada frase que se acrescenta, aumenta 
a presuno e o narcisismo  cultivado, pois o que foi comeado de uma forma 
insegura, algo hesitante,  desenvolvido e alongado e a insegurana d lugar a 
uma aparentemente interminvel dinmica oratria. E depois, quando realmente 
tudo foi dito e repetido at  exausto, s ltimas frases misturam-se ntidos 
rumores de uma despedida do mundo visvel por parte dos ouvintes e assim alguns 
s voltam a acordar com o obrigatrio tilintar dos copos. Ento olha-se a ver se 
ainda h alguma coisa no copo e acorda-se solidariamente o vi jinho.
49
0 balde de gua fria surgiu sem pr-aviso, como uma bofe
tada.
- Tens de perceber - dizia Armin, enquanto acariciava ter
namente o peito de Heidi. - Isto  uma coisa de famlia, no
posso fazer nada!
Heidi voltou-se lentamente de lado, para melhor o poder olhar
nos olhos.
- Tu podias, se para ti fosse importante. S que no queres! A mo dele 
deslocou-se do peito, passando sobre a cintura at
ao avantajado traseiro, detendo-se ali.
Heidi estava de olhar fixo nos olhos azuis dele.
- Isso  que no  verdade. A rvore genealgica de Kathrin
 to antiga como a nossa e o casamento entre ns os dois j h
muito que est marcado. Disse-te isso desde o princpio! Heidi esforou-se por 
manter a compostura. - Mas no me disseste que seria assim to cedo!
- Oito semanas so um perodo suficientemente longo!
53 Heidi percebeu pela expresso dele que o assunto o aborrecia. Os olhos 
haviam-se-lhe estreitado e a boca assumira uma expresso mais endurecida.
Custava-lhe pronunciar a frase que tinha debaixo da lngua, mas devia-o a si 
mesma e ao seu orgulho. E, alm disso, era a ltima tentativa de puxar a brasa  
sua sardinha.
- No vou manter uma relao com um homem casado!
0 corpo dele estava ali mesmo ao alcance da mo. Raramente cobiara tanto uma 
coisa, como este pedao de homem. Conhecia cada trao, conhecia o seu cheiro, 
sabia como era o seu toque. Se ele agora disser pois ento que seja", ou morro 
ou mato-o com pancada, pensou ela e, involuntariamente, susteve a respirao. 
Ele aproximou-se, deu-lhe marradinhas com o nariz de encontro ao peito, 
mergulhou-o como um jovem co na brincadeira, entre os seus seios fartos. Heidi 
no conseguiu impedir-se de rir e passou-lhe a mo pelos caracis curtos.
E claro que o queria. Mas queria-o s para ela e no a ttulo de emprstimo de 
uma cabra idiota, s porque a sua linhagem era mais antiga que a dela. A bem 
dizer, ela no tinha mesmo nenhuma, mas em contrapartida era de carne e osso, 
tinha uns respeitveis e assumidos noventa e trs quilos, com os seus vinte e 
cinco anos era mais jovem que a "noiva" e como banqueira estava predestinada a 
garantir o futuro de ambos.
Armin emergiu das profundezas dos seios dela e deu-lhe uma marradinha com o 
nariz.
-Ainda tenho doze amigos aristocrticos solteiros. Se quiseres
ficar com um deles, ficaria tudo em famlia!
- Como? - Heidi lanou a cabea para trs.
- Bem - ele avanou a dele - so todos colegas, sabes... - Eu sei, mas no 
percebo. 0 que tm os teus amigos a ver
comigo?
54
Ele no disse nada, mas comeou a mordiscar-lhe o lbulo da
orelha.
- Armin! - Heidi afastou energicamente a cabea. - Diz
-me o que queres dizer com isso!
- Oh... - lanou-lhe um olhar cndido.
- Tu no me digas que ests a falar a srio, ao dizer que me
queres engatar com um dos teus tipos! No me digas que tinhas
coragem para isso?
- Bem - Armin apoiou-se nos cotovelos - o Konradin,
por exemplo, tenho a certeza que te agradaria. Um rapaz perten
cente a uma antiga famlia de aristocratas, um pouco pelintra,
admito, mas tu, com as tuas qualidades de executiva bancria... Heidi deu-lhe 
com a almofada mais prxima na cabea.
- Pra j com isso - ameaou, ainda na dvida, se ele estaria
ou no a falar a srio.
- No, no paro! - agarrou-lhe no pulso. - Pensa um pouco.
Ns os dois, no d certo. J h uma eternidade que estava ponto
assente que eu me casaria com Kathrin. Bem o sabias!
- Esse compromisso de casamento est completamente fora
de moda! - Heidi sentiu um n no estmago, que lhe subia inexo
ravelmente pelo esfago acima. Agora tudo menos chorares, disse de
si para consigo. Comporta-te!
Ele encolheu os ombros. - Isto  assim mesmo!
- Nada  assim mesmo. - Heidi soltou a mo da dele. -
No  mesmo nada assim!
Automaticamente voltou-a para o tecto. Estar aqui nua, na frente
dele, enquanto se falava do tempo depois dela, tornava a coisa insu
portvel.
- Tu precisas de alguma coisa que te agrade ao olhar,  s isso
- lanou-lhe ela. - Precisas de uma mulher magra e alta que
55
faa alguma coisa. Esse  que  o verdadeiro motivo! J te disse que tentei 
fazer a dieta do Montignac e nunca misturei os alimentos, mas no resulta!
- Pois, porque comeste a carne, a massa e a salada uma atrs da outra. No  
essa a ideia, e alm disso tambm no  esse o meu motivo. Sabes que adoro cada 
quilo que tens! - Como que para o provar, estendeu a mo para ela.
Heidi esquivou-se.
- Deixa-me em paz!
- Mas que modos so esses? Isso agora  novidade! - Ele riu e comeou a 
acarici-la.
Quem sabe talvez s ja a ltima ver, pensou Heidi, e odiou-se a si mesma por lhe 
retribuir as carcias.
Nos dias que se seguiram tornou-se claro para Heidi que no
se tratava de nenhuma ideia fixa, mas Armin delineara de facto
um plano para conseguir que ela ficasse com ele. Apesar do casamento, possveis 
filhos e reforma em conjunto com Kathrin, reservara um lugar para Heidi a seu 
lado, nem que fosse apenas como amante efectiva.
Mas segundo ele, isso exigia que tivessem a oportunidade de se encontrarem numa 
tarde para tomar caf, o que s seria possvel, tal como j dissera, se ela 
aceitasse um dos seus amigos. A escolha era suficientemente alargada, eles 
viviam todos ali perto e eram, alm disso, tipos bastante simpticos. Se ela no 
queria o Konradin, talvez pudesse considerar a hiptese de ficar com o Dietbert. 
A linhagem dele nem era assim to antiga, mas isso, no caso deles, tambm no 
tinha qualquer importncia.
Heidi protestou que no queria nem o Konradin nem o Dietbert, s o queria a ele. 
E se todos os outros, pelos vistos, no tinham
56
qualquer problema em relao a uma mulher que no pertencesse  aristocracia, 
ento por que razo, logo ele, tinha de o ter?
Ele explicou-lhe que havia determinados motivos, baseados na histria de ambas 
as famlias e portanto, sobre esse assunto, no havia mais nada a dizer. Ele 
teria todo o prazer em apresent-la aos rapazes, todavia s o faria depois do 
casamento, pois, de momento, estava demasiado ocupado - dizendo isto, fez sinal 
ao empregado, com uma piscadela de olhos, para mandar vir a conta.
Quando Heidi, algum tempo depois, encontrou na sua caixa de correio o convite 
para o casamento de Armin e Kathrin, foi acometida de uma onda de nuseas, a tal 
ponto, que teve de se apoiar de encontro  parede. Parecia, de facto, que ele 
no se apercebia do que lhe estava a fazer. Ou ele no tinha qualquer espcie de 
sentimentos ou achava, de facto, perfeitamente bem, conduzi-la no sentido que 
mais lhe conviesse a ele. Heidi no podia conceb-lo.
Quando, finalmente, chegou ao seu apartamento, espalhou, chorando, em cima da 
mesa da cozinha, as fotografias que tinham tirado num fim-de-semana prolongado 
que haviam passado em Itlia. Mal tinha passado um ms e, no entanto, pareciam-
lhe fotografias de um outro mundo, totalmente irracionais, fictcias, irreais 
como num sonho-mas sobretudo: cruis. Fitava o riso de ambos, o gesto carinhoso 
com que ele a agarrara, quando o empregado tirara a fotografia, via-o atirar uma 
moeda para a fonte do amor eterno, tudo aquilo se encontrava diante dela cheio 
de cor e felicidade e teria rasgado as fotografias, se ao menos tivesse tido 
coragem.
Um grande soluo sacudiu-a e escondeu o rosto nas mos. Ele queria-a como 
segunda mulher. Ela, no papel de amante, vendida a um amigo, para que ele 
pudesse continuar a control-la e a possu-la? Inacreditvel!
Ela no conseguia decidir-se a ir para a cama. A dor era demasiado profunda. A 
certa altura voltou a agarrar nas fotografias dos
57
meses passados. Durante onze meses acreditara no grande amor. Ao longo de onze 
meses todos lhe haviam dito como estava bonita, como estava radiosa.
- Claro, estou apaixonada - respondera ela sempre, alegremente.
Apaixonada, dizia de si para consigo, em voz alta e dirigiu-se ao armrio da 
cozinha. Ainda ali se encontrava uma garrafa de usque, o presente de Natal do 
seu chefe. Ela no bebia usque, no o suportava, mas naquele dia tinha todos os 
motivos do mundo para se embebedar completamente.
Aps trs copos sentiu calor, tudo girava  sua volta, mas no se importou. 
Tinha de beber at o esquecer, quele filho da puta de namorado. Pelas quatro da 
madrugada esgotaram-se-lhe as lgrimas, estava ela no banho. Chegara o momento 
de fazer um inventrio.
Heidi saiu e postou-se nua diante do grande espelho. Bem, ela no era 
exactamente superelegante. A bem da verdade, no era mesmo nada elegante. Vendo 
melhor as coisas, voltou-se de um lado para o outro, beliscou as coxas, era mais 
redondinha a puxar para o bem constituda. Ou tambm gorda. Possivelmente. 
Voltou-se girando mais uma vez sobre si mesma e deu uma forte palmada no 
traseiro, o que fez com que a carne oscilasse.
Ok, sou gorda, disse ela em voz alta. Mesmo gorda, mas tenho energia e vou 
mostrar-te seu cretino, seu prncipe disfarado. Casa com a tua princesa, 
enterra-te no teu palcio de mrmore, que eu te darei o presente de casamento 
que mereces.
Cambaleante, pegou no copo, fez uma sade, sorrindo ironicamente  imagem 
reflectida no espelho e bebeu-o de um trago. Foi ento, enquanto se fitava 
assim, que lhe ocorreu o presente apropriado. Agora sabia exactamente o que 
tinha a fazer. Pouco depois
58
estava na cama, caiu num sono profundo e meia hora mais tarde, varreu o 
despertador da mesa-de-cabeceira, com um rpido movimento da mo, sem chegar a 
acordar completamente, quando ele comeou a tocar estridentemente.
0 dia do casamento no podia estar mais radioso. Heidi esperara que casse uma 
chuva torrencial, mas decididamente, estava idilicamente belo. Durante a 
cerimnia, a capela barroca da casa esteve superlotada, bastantes pessoas 
tiveram de ficar de p, pois os lugares sentados no chegavam, nem de longe, 
para todos. No prado verde, no muito longe da igreja, fora montada uma grande 
tenda branca, enfeitada com as armas de ambas as famlias, para alm de 
bastantes bandeiras, bandeirolas e imensos bales coloridos. Podia at parecer 
bonito e alegre se a ocasio no fosse to triste.
Heidi no entrara na igreja com os outros convidados, mas ficara sozinha l 
fora, um pouco  parte, aguardando que os noivos sassem. Quando os sinos 
comearam a tocar e os jovens fidalgos, todos aperaltados, se apressaram a 
formar alas, alm das damas-de-honor se porem a postos de cada lado da porta da 
igreja, Heidi aproximou-se um pouco. Trazia um delicado vestido de seda natural 
cor-de-rosa e um amplo e arrojado chapu de Vero a condizer. Este era o seu 
dia, isso ningum lhe podia tirar. Nem nenhuma Kathrin com todos os apelidos.
Armin e Kathrin surgiram do escuro interior da igreja para o adro soalheiro. Os 
aplausos elevaram-se no ar e eles beijaram-se. Heidi engoliu em seco. Faziam um 
belo par, l isso tinha de admitir, e tinham um ar extremamente fino e elegante, 
ao descer a grande escadaria, de brao dado, por entre alas, cobertos de arroz e 
felicitaes. Kathrin trazia um vestido branco decotado com uma saia rodada e 
uma cauda quase infindvel e Armin estava radioso, rente a ela, de fraque.
59
Assim que Heidi se aproximou dos noivos casados de fresco, fixou por uns 
momentos os olhos em Armin, lanando-lhe depois a ela um sorriso trocista, com 
um olhar dardejante.
- Ainda bem que tambm vieste, Heidi. J tinha dado pela tua falta na igreja!
Kathrin permanecia ao lado dele, provavelmente  espera que ele lhe apresentasse 
Heidi. Heidi no dizia nada. Como  que ele resolveria o assunto? Uma velha 
amiga? A minha futura amante?
Armin evitou essa formalidade apontando para a tenda.
- Anda, vamos beber qualquer coisa. 0 champanhe j est  espera!
Heidi no reagiu. Continuou  frente dele, o que levou Kathrin a apontar com um 
gesto impaciente para os convidados mais adiante.
- De facto talvez devssemos ir andando para a tenda!
Heidi lanou um sorriso frio a Kathrin.
- Tenho um presente de casamento especial para Armin - disse-lhe ela, para logo 
se voltar para Armin - e vou dar-to aqui e agora! - Kathrin ergueu ligeiramente 
o sobrolho e Armin lanou a Heidi um olhar interrogativo e cptico. Heidi ficou 
impassvel.
Armin fez uma ligeira festa nas costas de Kathrin.
- Se no te importas d-nos licena, eu j vou ter contigo. - disse-lhe ele em 
voz baixa. Todavia Kathrin no parecia nem por sombras disposta, nem mesmo em 
sonhos, a dar um passo que fosse sem ele.
Heidi no arredou p dali, mantendo-se em silncio.
- Eu j l vou ter contigo - repetiu Armin, num tom imper
ceptivelmente mais spero.
Kathrin lanou a Heidi um olhar agastado, afastou-se de Armin
e disse lentamente:
- Dois minutos. No quero fazer figura de parva no dia do meu casamento! - 
dizendo isto, puxou a cauda ajeitando-a e pas
60
sou por Heidi em direco a um pequeno grupo que a recebeu com aplausos.
- Nunca mais voltes a fazer isso. - Armin olhava-a com uma expresso de 
advertncia.
- 0 qu? - perguntou Heidi num tom inocente.
- Comprometeres-me diante dos meus amigos.
- Queres dizer diante da tua mulher. Os teus amigos j se comprometeram. No so 
l grande coisa. Todos os doze!
- 0 que queres dizer com isso?
Heidi agarrou no livro encadernado em pele de porco clara, que at ali 
transportara debaixo do brao e estendeu-lho.
- Aqui tens, o meu presente de casamento. Exclusivamente para ti!
Hesitante, agarrou nele, abriu-o contrafeito no meio e leu alto: "Geme mais do 
que consegue fazer. Alm disso tem um fraco desempenho, o que pretende compensar 
com anedotas idiotas sobre mulheres. Emite uns gemidos nada masculinos quando 
atinge o orgasmo..." Armin susteve a respirao, voltou a ler incrdulo o que 
acabara de ler em voz alta, e ergueu o olhar.
- Mas o que vem a ser isto?
- Isso  o teu amigo Julius, se no me engano. Os teus colegas Konradin e 
Dietbert encontram-se nas pginas um e dois.
Armin fechou o livro com estrondo como se o Antigo Testamento tivesse sido 
conspurcado com sangue, voltando todavia a abri-lo depois de passado o efeito de 
surpresa.
- No me queres mesmo dizer que isto...
- Mas o que  que tu tens? No achavas os teus amigos to fantsticos? S 
escrevi um relatrio sobre cada um deles. Comprimento, espessura, volume, 
resistncia, orgasmo, avaliao. Nenhum obteve mais que "suficiente". Eu pensei 
que para uma amizade
61
masculina to extraordinria como a vossa, podia vir a ser til cada um ficar 
bem informado acerca dos outros. Aqui tens meu querido,  com certeza muito 
divertido, eu tambm achei, quando alguns dos teus doze altamente elogiados 
amigos se revelaram uns verdadeiros papa-aordas. Mas isso podes tu ler com toda 
a calma!
Ele olhava-a atnito e sem palavras.
- E alis - disse ela enquanto lhe dirigia um sorriso - daqui
para o futuro, goza a tua vida sem mim!
Dito isto voltou-lhe as costas e deixou-o ali especado.
62
Crianas
As crianfas servem para tudo. De libi, para uma verdadeira alegria de viver, 
para dores de estmago, para mimar, para bater, para amar, para violar. Quem tem 
filhos pode construir uma bela reputa fo, se se  me famosa, pode-se ganhar 
muito bom dinheiro  conta dos filhos, se se  dono de uma fbrica e ganhar 
cabelos brancos com os f lhos, quando se  pai ou me solteiro. Sem as crianfas, 
tudo seria mais fcil, com os filhos, tudo seria mais belo, conforme o caso, des 
ja-se sempre o contrrio. Por outro lado, j todos fomos crianas e sabemos o 
que isso . Fizemos a experincia do que se sente quando os pais no tm tempo 
para ns, quando se  deixado sozinho, entregue aos medos e s preocupafes. J 
experimentmos como  quando outros recebem uma bicicleta, mas ns no, quando 
outros podem ir para um acampamento, mas ns no, quando se tem de ir cedo para 
a cama, apesar de estar prestes a dar o programa preferido na televiso. J 
experimentmos o que se sente, quando os irmos so preferidos e tambm 
experimentmos como  bom encontrar uma mo consoladora, quando nos ferimos no 
joelho ou recebemos uma m nota. Temos de ser capazes de compreender tudo aquilo 
por que as crianas h je tm de passar, de bom ou mau, se nos ouvirmos no mais 
ntimo de ns mesmos. Para que so necessrios os psicoterapeutas e os 
cientistas - uma alma infantil no  of nal nenhum livro fechado, ns j o lemos 
um dia.
63
A VERDADEIRA BNO
DA HUMANIDADE
No mesmo instante em que Laura engoliu a plula soube que se enganara. Em vez de 
engolir a "Plula" diria "Para-o-Desempenho-Feminino" agarrara na "Pilula-3D-
Testosterona". Isso fora terrivelmente desastroso, pois a plula do seu marido 
garantia trs vezes mais potncia, o que, tendo em conta o seu novo amante bem 
podia precisar - mas tambm um crescimento extra do cabelo e da barba.
Laura examinou as diferentes gavetas de plulas mas, com a pressa, no encontrou 
nenhum antdoto apropriado. As plulas contra o envelhecimento prematuro, as 
plulas contra as clulas gordas excedentes, para peitos grandes, para 
testculos firmes, contra a reabsoro de vitaminas e contra a queda dos dentes, 
estava l uma boa reserva de tudo, mas para um caso daqueles, no estava 
suficientemente prevenida.
Ligou por computador  amiga, com certeza que ela a poderia ajudar. Todavia, mal 
a sua imagem surgiu no monitor, Laura apercebeu-se de imediato que no era de 
todo o momento apropriado.
67
Una encontrava-se de barriga para baixo na marquesa, com trs dos seus quatro 
homens massajando-lhe as costas com dedicao. Poderia Laura, nessas 
circunstncias, consult-la sobre uma plula contra o crescimento da barba?
Mas Una limitou-se a rir s gargalhadas ao receber o telefonema.
- Ser possvel, darling que te esteja a crescer neste momento? - perguntou e 
endireitou-se de forma que o seu rosto sem uma ruga ocupou por inteiro o ecr 
diante de Laura.
- O que queres dizer com isso? - Laura apalpou o queixo, assustada. Com efeito, 
j sentia os primeiros plos e tambm o seu cabelo preto curto parecia j ter 
crescido.
- Que merda, Una, deitei inadvertidamente mo s plulas de testosterona do 
Abel. E agora, o que  que eu fao?
- Elas no te excitam terrivelmente? - Os olhos azuis esverdeados de Una, um 
produto da indstria farmacutica intergalctica, tinham uma expresso 
interessada.
- No fao a menor ideia. Una, o efeito ainda no chegou a tanto. A mim agora s 
me interessa o antdoto. Olha s para mim!
- De facto.  notvel! - Una lanou-lhe ainda mais um olhar, desaparecendo a 
seguir do monitor deixando os seus trs homens  vista. Eles sorriram a Laura 
com um ar atrevido, o que levou Laura a afastar-se rapidamente do campo de viso 
da sua cmara. Enquanto tacteava receosa o crescimento constante da sua barba, 
ouviu o beamer zumbir. De facto, sobre a travessa de preparao j se haviam 
materializado trs plulas cor-de-rosa. Em pnico, Laura agarrou nelas e 
engoliu-as directamente da palma da mo. Depois apressou-se a voltar para a 
frente do computador. Una j parecia l estar  sua espera.
- Fantstico, Una, isso  que foi rapidez! Agora  s esperar que faam efeito!
Ela fez uma expresso intrigada.
- 0 que  que tem de fazer efeito? Eu queria justamente dizer-te que todos os 
meus antdotos se tinham esgotado. Ainda teria vrias plulas para diversos 
sonhos, a comear por ficar apaixonado de fresco e a acabar em deixar velhos 
amantes sem dor; alm disso, algumas para a regenerao da camada mais 
superficial das clulas e o meu conselho secreto, as verdinhas, para um tecido 
conjuntivo jovem e atractivo. Depois ainda haveria...
- Una! - interrompeu-a Laura, enquanto procurava esconder o rosto atrs das mos 
- que plulas eram aquelas que eu acabo de engolir?
Irritada, Una torceu o narizinho arrebitado moldado de acordo com o projecto de 
beleza X3078.
- No fao a menor ideia, querida, j te disse, no tenho nada disso! - 
Desconcertada, Laura deixou cair as mos e percebeu ao mesmo tempo pela 
expresso involuntria de susto de Una, que j tinha com certeza um pssimo 
aspecto.
- Que tal usares para j uma mquina de barbear? - perguntou Una hesitante.
Laura interrompeu a ligao furiosa e correu de volta para o seu beamer. Com 
efeito, entretanto, tambm l aparecera um folheto com a literatura. Leu-o 
freneticamente, mas no o compreendeu e teve de o voltar a ler. "Amostra 
publicitria: plulas grtis" podia ler-se. "Um plo mais bonito para os seus 
animais de estimao. Transforma simples gatos de plo curto em soberbos gatos 
persas. Tambm se pode dar a ces..."
Laura deixou cair a folha e coou-se nas costas, onde sentia uma horrvel 
comicho. Isto  para animais, disse ela de si para consigo, no pode fazer 
efeito nas pessoas. Realmente no! Voltou rapidamente a folha: "Para gatos, uma 
plula, para ces, duas e quem desejar melhorar o aspecto do seu cavalo, d-lhe 
trs."
69
68
Tomara a dose indicada para um cavalo. Restava esperar que a indstria 
farmacutica desta vez tivesse cometido um erro e aquilo no surtisse qualquer 
efeito. Todavia o que sentia nas costas, contradizia essa hiptese. E a barba 
tambm crescia sem parar, bem como os cabelos de encontro  gola. Tinha de se 
ver livre daquilo antes que Abel viesse para casa. S era estranho que a sua 
libido no reagisse. As plulas no prometiam trs vezes mais potncia? No 
admirava que o Abel no conseguisse mais nenhuma ereco. Portanto a culpa no 
era dela!
Entretanto sentiu tambm pelinhos a crescerem-lhe nas coxas. No havia nada a 
fazer. Tinha de tomar uma medida qualquer antes de ficar completamente coberta 
de plos. Lembrou-se de Bine - era uma esteticista, especialista em radiaes e 
conhecia todos os truques de beleza. Ainda era melhor que Una, que apesar de ter 
oitenta e cinco anos, continuava a parecer ter vinte e cinco.
Bine ficou horrorizada, o que se podia ler com toda a evidncia, no seu rosto de 
anjinho de pele clara, de Miguel ngelo.
- s mesmo tu, Laura? - perguntou, aproximando-se o mais que podia do seu 
monitor.
- Como se pudesse no ser! Mas no fao tenes de ficar assim! Podes dar-me 
algo contra plulas-de-Testosterona-3D? E j agora tambm contra plulas que 
fazem crescer o plo?  urgente!
Bine afastou-se um pouco com o seu rosto de mrmore, quase como se aquilo 
pudesse ser contagioso, se se aproximasse demasiado.
- Como  bvio, tenho aqui uma plula para depilao. No
teu caso talvez seja melhor tomar logo duas... - Ela voltou a apro
ximar-se um pouco. - Diz-me c,  possvel que nas tuas mos...?
Laura olhou para a penugem macia que lhe crescera nas costas
das mos, depois arregaou lentamente as mangas. Tambm o
brao j se encontrava coberto por um espesso plo castanho-claro.
- Nem posso acreditar - disse Laura e estendeu o brao em direco  cmara para 
que Bine tambm o pudesse ver.
- Com certeza que tambm tens plos no peito, no traseiro e nas coxas! - Pelos 
vistos o interesse profissional de Bine despertara e pesava mais que a sua 
averso. - Posso pedir-te que te dispas? Talvez te esteja tambm a crescer um 
rabo, ou como  que isso se chama nos ces? Uma cauda?
Laura apressou-se a baixar de novo as mangas.
- Manda-me essas plulas para depilao, isso  tudo o que eu quero neste 
momento! - Teve de voltar a coar-se nas costas e apercebeu-se assim que, com 
efeito, j lhe crescera um plo fofo, semelhante ao dos ces. - Despacha-te! - 
acrescentou.
-A propsito j te falei das nossas novas plulas contra orelhas demasiado 
grandes? Elas no s encolhem para o tamanho que est em moda no momento, como 
tambm, com a plula suplementar, se instala nela uma linha de libido. Imagina 
s, basta que brinques com a orelha e logo...
- Acaba j com todo esse disparate! Agora tenho outras preocupaes!
- No, imagina, ter um orgasmo em frente de toda a gente e ningum o suspeitar 
sequer!
- Se tu apregoas essa coisa aos quatro ventos, todos o sabero! Pelo menos todos 
os que me pudessem ver a mexer nas orelhas!
Bine ficou calada por uns instantes.
- O que vem a ser isso?
- Anda l, Bine! - Laura coou a barba que agora j lhe crescera abaixo da gola. 
- Liberta-me destes plos! No seja l por
71
70
isso, manda-me tambm as outras plulas. Apesar de achar que tenho umas orelhas 
excepcionalmente bonitas!
- Completamente out! Demasiado quadradas e j ningum anda com o lbulo grande!
- Est bem, est bem, mas despacha-te, antes que o Abel chegue a casa! Se no 
ele vai pensar que eu ando a provar as plulas dele de propsito. Ele no vai 
gostar nada disso, porque elas so tremendamente caras!
- As plulas para as orelhas tambm! j para no falar das plulas 
suplementares!
- Anda, Bine! Por favor!
Bine desapareceu do monitor e deixou o estdio  vista. Laura no tinha a 
certeza, mas viu algum deitado na marquesa mais afastada, que se parecia imenso 
com Abel. Que tratamento de radiaes cosmticas poderia Bine administrar-lhe?
Ouviu o seu beamer zumbir e logo a seguir Bine estava de volta.
- Agora podes servir-te - disse ela. - Bonne chance. E para a prxima vez trata 
de consultar uma tcnica especialista antes de experimentares plulas 
desconhecidas!
- Cus, Bine, isso foi s... depois explico-te!
Laura correu para o seu beamer. De facto, l estavam as suas libertadoras. Se 
lhe punham as orelhas pequenas, com ou sem libido, isso agora, era-lhe 
totalmente indiferente. 0 importante, era que ela se visse de novo livre dos 
plos. Engoliu-as todas, empurrando com um golo de Chemwater. Agora s tinha de 
aguardar. Era de esperar que as plulas actuassem to rapidamente como as 
outras. Para ter a certeza, despiu-se num dos poucos cantos no vigiados da 
casa. De facto, Bine tinha razo. Todo o seu corpo j se encontrava coberto de 
plos, ela sentia-se como os ces do jardim zoolgico. Fora da vigilncia de 
toda e qualquer cmara,
72
passou a mo pelo peito e pelas pernas e teria podido achar cmico, se no fosse 
a preocupao de que as plulas de Bine talvez pudessem no fazer efeito.
Mas ento sentiu. As orelhas encolhiam bastante depressa, sentia um formigueiro 
e um arrepanhar, vibraes e picadas, sentia pele de galinha por todo o corpo, 
dos dedos dos ps,  raiz dos cabelos. Entretanto, tinha uma pele notvel, como 
o casaco de peles da me na velha fotografia de 1999. Laura comeou a ficar 
impaciente. No ano de 2085 devia ser possvel resolver coisas to primrias como 
essa, mais depressa do que, pelos vistos, ali se passava.
Todavia fez efeito. Os plos caram-lhe aos tufos, primeiro da cara, depois no 
corpo e finalmente os cabelos. Laura ficou onde estava, a ver isto acontecer. 
Finalmente ficou rodeada por um fofo monte de plos curtos e compridos, escuros 
e claros, em torno das pernas.
S foi chato o facto de tambm o cabelo, incluindo os plos debaixo dos braos e 
os plos pbicos, tambm lhe terem cado.
Ela estava totalmente nua.
Com isso  que no contara!
Furiosa saiu do monte de plos, sacudiu os dedos dos ps, voltou a vestir o 
vestido de Orion. Ligou pelo computador a Bine. 0 vidro fosco permaneceu escuro. 
0 que andaria a fazer aquela idiota enquanto os plos lhe caam?
Voltou a ligar-lhe, com mais energia, mas no serviu de nada. Finalmente Laura 
dirigiu-se  sua gaveta de plulas. Havia de conseguir governar-se sozinha. 0 
que precisava agora, era da plula para uma cabeleira feminina, da marca "curto, 
denso e preto". Mas, como no podia deixar de ser, h muito que no encomendava 
desses e agora o que havia era s para uma situao de emergncia doiro e 
comprido". Laura reflectiu.
73
A seguir ligou ao seu cabeleireiro. Este fitou a sua careca de testa franzida e 
explicou-lhe por fim que nunca lhe podia enviar as plulas adequadas ao seu 
couro cabeludo, grupo sanguneo e produo de caspa, antes de vinte e duas 
horas.
- Ento envie-mas - disse Laura categrica, desligou a comunicao e decidiu 
que, de momento, lhe era indiferente o que quer que a enfeitasse, desde que 
tivesse cabelo. Engoliu a plula para cabelo "comprido e louro". Dali a vinte e 
duas horas, poderia voltar a modificar isso.
Deixou-se cair na cadeira de baloio cheia de expectativa. Algumas massagens nos 
tecidos ajudariam a passar o tempo at a plula fazer efeito e ela voltar a ter 
uma aparncia humana. Enquanto se entregava  cadeira e s suas cogitaes 
deixando-se levar na interminvel amplitude das sensaes das ondas, sentiu um 
formigueiro no couro cabeludo e passou a mo por ele. Com efeito os cabelos 
despontavam. Que sorte!
Laura ergueu-se ao ouvir o rudo do elevador. Abel no tardaria a chegar. Ligou 
o espelho e observou-se. Agora os cabelos j lhe chegavam aos ombros e ele 
consider-lo-ia como uma surpresa. Uma pequena presuno masculina,  certo, mas 
hoje ela no lhe destruiria essa iluso. Talvez ele tivesse ido receber 
radiaes erticas junto de Bine e voltassem a ter uma noite cheia de surpresas. 
J h muito que isso no sucedia graas quelas inteis plulas-de-Testosterona-
3D, como ela agora bem sabia por experincia prpria.
No admirava que ele tivesse de travar uma luta constante contra o crescimento 
anormal de barba e cabelo. Provavelmente atafulhara-se durante meses com aquela 
porcaria, na esperana de aquilo vir a fazer efeito.
A parede prateada deu passagem a Abel e Laura foi ao seu encontro. No o achou 
diferente do habitual, nenhum brilho exci
tante nos olhos, nenhum sorriso convidativo ao canto da boca. Nem o mais leve 
indcio que lhe pudesse recordar o olhar de desejo do seu amante.
Ela tinha de ir direita ao assunto se ainda quisesse obter algo do seu marido.
-j preparei a cama para a noite - disse, beijando-o alegremente na boca.
- Ai sim? - disse ele, olhando-a estupefacto. - Temos novidades?
- Animalesco, como o ninho de amor da minha me no ano de 1999! - Apontou com um 
gesto gracioso para a cama de plos claros e escuros, macios e speros, curtos e 
compridos.
- Com mil raios. - Abel estava mudo de espanto, olhando depois para Laura com um 
olhar perscrutador. - Como  que sabes?
- Como? - Agora era a vez de Laura semicerrar os olhos interrogativamente. - 0 
que queres dizer com isso?
Ele soltou uma gargalhada profunda e abafada e ela percebeu claramente que se 
tratava de sexo.
- Agora - ele deixou-se afundar lentamente no ninho de amor de Laura. - No  
uma sorte j no pertencermos  gerao da tua me? Agora estaramos velhos e 
encarquilhados, desesperaramos com a decadncia do nosso corpo, teramos de 
suar e gemer e estrebuchar ou qualquer coisa parecida, para fazer amor. E pensar 
que dantes isso ainda os levava a ter filhos, que horror!
- Pois era - Laura encolheu os ombros. - Quem no morre no precisa de ter 
filhos. Sempre se teve de suportar alguma coisa, mas apesar de tudo, - ela 
puxava discretamente pelo cinto dele - algumas coisas talvez fossem bastante 
agradveis...
Ele agarrou-lhe no farto cabelo louro que entretanto lhe chegava s ancas.
75
74
- No tens de te esforar realmente nada, Darling. Estou informado sobre o que 
realmente queres. E para que vejas que te amo verdadeiramente, imitei-te!
Laura deixou-se cair ao lado dele.
- No percebo o que queres dizer!
Ele no disse nada mas mexeu significativamente na orelha, que Laura, de 
repente, achou estranhamente pequena. Enfiou o dedo l dentro e estendeu-se ao 
lado dela. Imediatamente ficou com uma expresso extasiada.
- 0 que  isso agora? - perguntou Laura e foi ento que se lembrou. Esquecera-se 
completamente daquilo. A orelha libidinosa! Por isso  que ele estivera no 
estdio da Bina. Ela tambm lhe dera aquelas plulas! Sem palavras, Laura 
afundou-se a seu lado no plo.
- Foi uma ideia simptica da tua parte - ainda o ouviu dizer. Depois viu o seu 
dedo indicador avanar para ela e sentiu-o enfiar-se na sua nova orelha. No 
mesmo instante sentiu uma corrente nervosa percorr-la do baixo ventre at  
orelha. - No  maravilhoso - segredou ele excitado - um verdadeiro progresso do 
nosso tempo. 0 corpo satisfaz-se a si mesmo. Os nossos pais j o deviam ter 
feito para ns h oitenta e cinco anos atrs! 0 prazer original, intenso e puro, 
s para ns. No temos de o partilhar com ningum, damo-lo a ns prprios. Isto 
 a revoluo dos sentidos! Estas plulas so uma verdadeira bno para a 
Humanidade!
Mes
As mes podem ser horrivelmente irritantes porque sabem sempre mais sobre tudo. 
Quando se  pequeno, tem de se vestir um casaco apesar de no se ter frio 
nenhum. Crescemos e no podemos sair  rua com um determinado vestido, porque  
demasiado curto. Se entramos para a universidade, ficamos sujeitos aos cuidados 
maternais. Depois ficam os colegas sob vigilncia. "Tinha de ser aquele com o 
piercing no nariz o filho do fabricante no poderia... ?" Funda-se um lar, l 
vem o inevitvel comentrio: "Eu fato sempre assim... " Chegam os filhos, no 
nos safamos dos sermes sobre educao: "De mos sujas  mesa, como podes 
permitir uma coisa dessas!" Depois, aos quarenta, chegamos quela idade em que 
j no se precisa mesmo de uma me, mas comea-se a pedir conselhos 
voluntariamente. Aos cinquenta, tememos pela vida da nossa me e aos sessenta, 
sentamo-nos  mesa da nossa filha e censuramos o filho dela por se sentar  mesa 
com as mos sujas...
77
1
76
i
Ela deitou-se sobre ele e ele ficou sem ar para respirar. E que no respirasse, 
pois era um miservel pequeno falhado. Regina aliviou um pouco o peso e olhou 
para baixo. Com efeito ele j estava azul. Isso agradou-lhe pois estava em 
franca contradio com as suas mximas frescas.
- A gordura fode-se bem - dissera ele. Agora podia ver aonde  que chegava com 
esse tipo de mximas.
- A magreza morre lentamente - disse ela em voz baixa e sorriu ironicamente para 
ele, enquanto os olhos se lhe esbugalhavam.
- Faz com que seja bom - arquejava, mas ela tinha-o enterrado sob os seus cento 
e trinta quilos e sentia-se bem com isso. Afinal ainda agora ele era de opinio 
que as mulheres tambm deviam poder ficar por cima e no apenas deixar-se 
servir. Agora j sabia o que era bom. Em todo o sentido da palavra. Porque 
haveria ela de querer mudar isso, se estava a gostar assim?
Era o terceiro nesse ms, no entanto Regina no se considerava uma delinquente 
sexual, nem mesmo indo o ms apenas a meio.
L
81
A culpa no era dela, era do modo como aqueles homens a abordavam. Em vez de 
procurar chegar  sua alma, apalpavam-lhe o peito. Admitindo que ele era trs 
vezes maior que o das outras mulheres, todavia, para ela, isso no era uma 
desculpa. Eles afundavam-se nela e admiravam-se, depois, se sufocavam. No era 
mais do que a consequncia lgica.
Quando nessa tarde Regina se ergueu da cama, nem se dignou olhar para o que l 
deixara. Tambm, porque haveria de o fazer? Era inspido e bastante repugnante.
- Sou a rainha - disse ela em voz alta, antes de sair de casa.
No era apenas um ritual, mas tambm a verdade. No era em vo que usava este 
nome. Desde cedo que a me lhe ensinara que era o seu porte, o seu nome e a sua 
convico que a definia como pessoa e, sobretudo, como mulher.
Com esta certeza, j em criana, tentava proteger-se da troa dos colegas, uma 
vez que no lhe restava qualquer outra opo, dado a me ser absolutamente 
intransigente quando Regina procurava no comer as refeies at ao fim. Para a 
me, os magros  que estavam doentes, no os gordos. Finalmente via-se pelo 
aspecto, que os gordos passavam forosamente bem. E preciso ter possibilidades 
para se ser gordo, dizia sempre a me dela, considerando positivos ambos os 
aspectos.
Contudo, de nada lhe serviram as belas mximas da me durante a puberdade, pois 
os rapazes s olhavam para as magras. Quando se apaixonou a srio pela primeira 
vez, pediu  me para fazer uma dieta. Fosse o que fosse, desde que emagrecesse 
dez quilos. A me ripostou que, todavia, sempre pusera Regina no mundo, o que 
significava que tambm ela encontrara um homem. Isto apesar da sua considervel 
corpulncia. Portanto, tambm havia homens que achavam a gordura atractiva. 
Assim sendo, uma dieta era completamente desnecessria.
Regina continuou a comer e desprezava-se por isso. Depois
apercebeu-se que o supernamorado da colega mais odiada por ser
a mais bonita da turma, lhe estava sempre a lanar olhares estra
nhos. Foi a sua primeira vez, ela tinha dezasseis anos e era romn
tica e ele dezanove e era sexy. 0 que ela ganhou com isso foram depresses 
profundas - porque a seguir, ele j no quis saber dela - e a profunda convico 
de que nunca mais na vida conseguiria apaixonar-se.
Quando chegou a vez de Ludwig, ela tinha vinte anos e desde aquela primeira 
noite, nunca mais tivera um namorado. Em todos aqueles anos afastara-se de 
todos, bem como das discotecas, o que parecia ser o resultado de um trauma. Ter 
de ficar posta de parte por ser gorda, enquanto os outros se divertiam, era 
coisa a que no queria sujeitar-se. Experimentou uma dieta aps a outra, mas 
tinha a impresso de ficar cada vez mais gorda. A me limitava-se a abanar a 
cabea. Tal como antes, continuava a ser de opinio que a filha exagerava.
- Olha, - dizia ela indicando cada modelo mais possante que encontrava nos 
catlogos de XXI, - esta  o mximo. Mas nem chega aos teus calcanhares! Devias 
olhar para ti com olhos de ver, Regina, tu s a rainha!
A "rainha", entretanto, habituara-se a passar despercebida. Esperar e manter-se 
de p atrs, era o seu lema, mal algum se aproximava um pouco mais. Tal como 
naquela tarde de Primavera, em que se encontrava sentada num banco do parque, de 
olhos fechados e o rosto voltado para a luz do sol.
A princpio, no reagiu ao sentir a sombra de algum que se aproximara. Por fim, 
abriu os olhos e viu o rosto sorridente de um jovem.
- Ol - disse ele e no se moveu.
83
82
- Ol - respondeu Regina, tentando recordar-se se o conhecia.
Ele examinava-a, o que, aos poucos e poucos, se tornou desconfortvel para 
Regina. Automaticamente fechou o casaco sobre o peito.
- s o mximo - disse ele e acenou-lhe com a cabea. Regina no disse nada, pois 
no tinha bem a certeza do que ele queria dizer com isso.
- Chamo-me Ludwig - apresentou-se.
- Regina - respondeu ela, sem conseguir conciliar bem as ideias.
Ele era giro. Um tipo de jeans. Como dissera a colega cujo namorado lhe roubara 
a virgindade? "Os homens de jeans so os melhores amantes!"
0 seu prprio namorado, em todo o caso,  que no fora. Ou
teria sido? No fazia a menor ideia.
- Posso sentar-me ao p de ti? - Ele continuava diante dela. Regina chegou-se 
para o lado, num gesto automtico.
- No  preciso - disse e fez um sorriso trocista. - Deixa
-te estar!
Depois sentou-se ao lado dela e recostou-se, descontrado, s costas do banco. 
Regina sentiu-se crispar toda. No se conseguia lembrar quando fora a ltima vez 
que um homem se sentara a seu lado. Sentia a coxa dele ao lado dela e o calor 
dele.
- Moras aqui na cidade? - perguntou ele, pouco depois. - Acho que nunca te tinha 
visto! - Calou-se por um momento, acrescentando a seguir: -Infelizmente!
Regina lanou-lhe um olhar de esguelha. Ele era bonito, demasiado bonito para se 
sentar ali ao p dela no banco do jardim. Era simplesmente um facto.
- 0 que queres? - perguntou ela directamente, certa de que a me lhe daria na 
cabea por isso.
Ele encolheu os ombros.
- Cavaquear um pouco. S isso... - Ele olhou-a. - Ou estarei a incomodar? Ests 
 espera de algum?
Bastaria que lhe dissesse que sim, reflectiu Regina, e provavelmente ver-me-ia 
j livre dele. Ela olhou para a mo dele que se encontrava aberta e firmemente 
pousada, com as unhas limpas e bem cortadas ao lado dela. E porque havia de o 
fa.Zer?
- No estou  espera de ningum - disse a verdade - estou s a gozar o sol!
Ele convidou-a para um caf, depois para tomar um vinho, e finalmente acabaram 
em casa dele. Regina tinha conscincia de que tudo estava a andar demasiado 
depressa, mas era a oportunidade e agora queria saber se ele a achava bonita? 
Atraente? Sexy?
A princpio ele teve dificuldades com a ereco, isso ela notou, o que a admirou 
um pouco. No fora a ideia dele acabar a noite daquela forma? Ela esforou-se, 
mas no sabia ao certo como faz-lo, pois afinal de contas faltava-lhe a 
experincia. Quando finalmente aconteceu ela viveu-o de uma forma totalmente 
diferente da da primeira vez. Talvez por ele no ter avanado como um garanho 
de cinco pernas. Ela pde sabore-lo, sem no entanto ter a certeza se ele a 
fazia feliz.
Desde ento encontravam-se re armente, pelo menos duas vezes por semana. Ludwig 
estava sempre bem-disposto, mas raramente contava alguma coisa de si prprio. 
Regina teve de reconhecer, que passados dois meses ainda mal o conhecia. No 
conseguia determinar ao certo em que se baseara aquela relao. Seria aquilo uma 
relao de namorados? Parceiros? Poderia evoluir para uma coisa mais sria? Ou 
tratar-se-ia apenas de uma relao baseada na atraco sexual? Ela queria mais, 
pois apaixonara-se por ele.
85
84
Ele ocupava-lhe os pensamentos e instalara-se no seu corao. Tudo nela gritava 
por ele e no pensava noutra coisa seno em como poderia lev-lo a verem-se mais 
vezes ou, talvez at, a fazer planos para um futuro juntos. No seu sonho 
acordado mais audaz, ansiava por uma casa em que vivessem juntos.
Cuidadosamente, preparou a me para essa eventualidade e para sua enorme 
surpresa, constatou que a me nada tinha contra os seus planos.
- No te precipites, filha, goza a vida - disse, mas tirando isso, mais nada.
Ludwig estava no duche, quando Regina viu a ponta de uma folha entalada na 
gaveta da mesinha-de-cabeceira. Era evidente que a gaveta fora fechada  pressa. 
Fazia parte do seu sentido de ordem, que lhe fora incutido pela me durante 
anos, que desejasse abrir a gaveta e colocar a folha direita l dentro. 0 seu 
olhar deteve-se numa srie de contas e ela teve de sentar-se ao perceber de que 
se tratava.
Quando Ludwig voltou do banho, psquica e fisicamente recomposto, viu- plida e 
a tremer em cima da cama. Soube do que se tratava, mesmo antes de ela emitir um 
som. Ficou diante dela  espera, de braos cruzados e a sua inquietao diminuiu 
visivelmente.
- Ela comprou-te!
Ele no disse nada.
--Fala! Ela comprou-te!
- No tinhas nada de andar a coscuvilhar. Isso no se faz! Regina endireitou-se. 
As suas emoes atropelavam-se. No
sabia se devia chorar silenciosamente ou se devia vociferar.
- Isso no foi de propsito! Isso no! Inteno foi isto aqui!
- Ela fez um gesto abrangente com a mo por cima da cama.
86
- Pode ser. Apesar disso, gostei de o fazer contigo. Acho que devias sab-lo! 
Para o teu futuro, quero dizer!
Foi nesse momento que Regina, apesar dos seus cento e trinta quilos saltou da 
cama com a agilidade de um boxer e o agarrou pelo pescoo. Ela agarrou-o, mas 
ele era surpreendentemente forte, escapou-se-lhe e ps-se em segurana do outro 
lado da cama. Regina ficou parada de olhar fixo nele. Poderia t-lo morto ali 
mesmo. Mas era a pessoa errada.
- Sinto muito - disse ele ainda, enquanto ela arrebanhava as suas coisas e batia 
com a porta do quarto atrs de si, para se vestir no vestbulo.
Meia hora mais tarde, j estava em casa. Nunca atravessara a cidade a uma 
velocidade daquelas. 0 radar disparara em cada semforo vermelho, mas ela no 
estava com disposio para coisas secundrias: a sua honra, a sua dignidade, a 
sua vida, estavam em jogo.
A me voltara-se para ela com uma expresso interrogativa, quando ela irrompera 
pela cozinha dentro, mas ela j tinha a faca da cozinha na mo.
- Hs-de pagar-me por isto - gritara e ergueu a faca para ela.
- Ah, isso? - dissera a me e encarou-a com toda a calma.
Por uns instantes nenhuma delas disse nada, depois Regina deixou cair lentamente 
a mo que segurava na faca.
- Como pudeste fazer-me uma coisa dessas! Comprar um homem!
- S te queria demonstrar que s desejvel. Pensei que o prximo viria por si!
Agora caam-lhe as lgrimas incontidas pela cara abaixo e a me estendera-lhe um 
leno branco e perfumado. Regina deixara-se cair no banco da cozinha.
- Di tanto!  horrvel! Eu podia ter-te assassinado, era o que tu merecias!
87
- No se mata uma me. Muito menos por causa de um homem!
- Ento mais depressa se assassina o homem. Afinal de contas ele aceitou o 
dinheiro! - acrescentou Regina em voz baixa, assoando-se ruidosamente.
A me puxara um banco.
- S queria que lhe tomasses o gosto, mais nada. Era realmente s isso que eu 
queria.
- Tomar-lhe o gosto! - repetiu Regina baixinho, fixando um ponto fixo imaginrio 
 sua frente. - Sim, no h dvida que lhe tomei o gosto.
A me rira aliviada.
- Isso tambm se nota. H semanas que andas com esse no sei qu no olhar, 
Regina, isso digo-te eu, agora conquistas todos! A partir de hoje podes escolher 
os melhores!
Dera resultado, a sua me tivera razo. Ela sentava-se no banco do jardim e 
olhava para os homens. E no tardava muito, l estava um a seu lado. A maior 
parte ficava de olhar fixo no peito dela, outros diziam-lhe uma chalaa. Mas 
todos queriam ir com ela. E todos s queriam uma coisa dela. E Regina tambm, 
pois tomara-lhe o gosto.
88
Pais
Os pais so sempre os maiores, mesmo quando so completamente ausentes. Sabem 
tudo, na maiorparte das vetes, coisas que no podemos comprovar de imediato, ou 
que no interessam a ningum. Na maiorparte dos casos, foram uns ases em 
desporto e maus em religio e moral, porque s as mulheres acreditam em Deus. Os 
pais so insubstituveis, no entanto no tm qualquer escrpulo em fugir s 
responsabilidades quando surge uma noiva mais jovem. Os pais podem ser 
incrivelmente sentimentais quando o velho co de caa recebe a injeco da 
morte, mas no demonstram quaisquer escrpulos em abandonar a mulher sem 
sustento. E sobretudo, os pais s tm filhos para poderem comprar o brinquedo 
que sempre desfiaram ter. Gameboj e pista de corridas, jogos de vdeo e comboio 
elctrico - que bonito, enquanto o pap brinca estendido no cho ao p da rvore 
de Natal, o filhinho l a edio do jubileu da Playboy. Os pais ou so 
companheiros muito queridos, que no levamos a srio, ou pessoas respeitveis, 
que no suportamos. Das duas uma, ou nos esforamos incrivelmente por os imitar 
em tudo, ou seguimos teimosamente o caminho oposto. Uma coisa  certa: um pai 
mantm-nos ocupados a vida inteira. Quer o combatamos, quer o imitemos,  sempre 
uma figura central com a qual nos identificamos toda a vida, mesmo quando, de 
repente, se venha a descobrir que ele no  o nosso pai biolgico.
89

r
Fantstico! Uma mo que entende a minha lngua! Que percorre deliciosamente as 
vrtebras para cima e para baixo, que contorna meigamente as minhas omoplatas, 
se detm debaixo da minha orelha direita, para tactear lentamente de regresso  
stima vrtebra. Oh que delicia, oh que felicidade, oh que satisfao! Um 
suspiro de prazer deve mostrar-lhe que esta mo  a mo certa! Aquela pela qual 
tanto espermos, tanto ansimos. A mo interpreta mal este sinal. 0 ouvido 
correspondente interpreta o suspiro como sinal. As hormonas tocam as trombetas: 
ao ataque!
As partes intumescentes zombam.
- Isso no era mais do que os preliminares!
- Como, digo eu, os preliminares?? Para mim, isto, s por si,  um jogo,  uma 
coisa completamente independente. A isso chamo ternura. Simplesmente ternura. 
Nada mais!
- Nada mais? - diz a boca que corresponde  mo, e a mo retira-se. - 0 que quer 
isso dizer? Nada mais? - perguntam as partes intumescentes, irritadas. - Por 
acaso isso foi tudo? - A hi
93
pfise lana mais uma descarga de hormonas e o crebro ordena  mo: anda, tenta 
mais uma ve,7.'A mo leva, surpresa, uma sapatada, eu salto do sof, a boca 
correspondente diz:
- As mulheres so umas idiotas!
Que chatice que sejamos umas idiotas. Que chatice que sejamos capazes de 
distinguir. Que chatice, sermos capazes de distinguir entre ternura e 
preliminares. Que chatice que tambm queiramos saborear a ternura pura.
Que chatice os homens confundirem ternura com preliminares. Que chatice, a 
maioria dos homens, acharem que no ganham nada com a ternura sem chegarem a 
"vias de facto". Que chatice, os homens terem sempre de receber qualquer coisa 
em troca.
Apenas um pormenor: que ganhamos ns com isso?
Sexo e ternura. Para as mulheres  fcil de combinar, mas tambm de experimentar 
um, independentemente do outro. E de saborear.
Mas como os homens raramente tm a capacidade de separar estas duas coisas, as 
mulheres acabam por procurar a ternura pura noutro lado. Junto de homens 
impotentes. Junto de padres catlicos, junto da melhor amiga. Junto do meigo 
gato persa, junto do cavalo fungador, junto dos filhos. Os rapazinhos recebem 
mimos das mes at mais no poderem. Assim que podem baixam uma cortina entre si 
e as horas de carinhos recebidos na infncia e querem: sexo.
E procuram. De uma rapariga para a outra. Sempre, sem cessar. Sim, o que 
procuram eles na realidade? A ternura das amantes? A compreenso da mulher? Os 
cuidados da me? Que disparate: sexo. E sempre de novo a confirmao de que a 
mam tinha razo quando dizia que ele possua a mais bela pilinha de toda a 
Alemanha, que digo eu, do mundo, a nvel global, interplanetrio e ponto final.
94
E ns? 0 que procuramos ns? A mais bela pilinha do nosso hemisfrio?  claro 
que sim. Mas tambm com um pouco de homem como complemento. E na verdade, com 
um, que tenha compreendido que o seu mais querido, o seu adorado apndice, no  
chamado a participar na ternura pura. E acreditem em mim, tipos desses existem 
mesmo. Algures.
95
Amizade masculina
A amiga para toda a tida, o amigo para o desporto. Na realidade  estranho. No 
meu vasto crculo de conhecidos e amigos, quase todas as mulheres tm uma amiga 
para toda a vida, mas raro  o homem que tem um amigo verdadeiro. Um a quem 
confiemos os nossos pensamentos, os nossos sentimentos, os nossos desejos e 
anseios, com quem passemos noites inteiras  conversa, que sabemos que nos 
compreende para alm das palavras, que conhece os nossos altos e baixos, as 
nossas qualidades e fraquezas. Se pergunto aos homens, parecem subdividir estas 
ami<ades de acordo com o sucesso, a locali<aFo e o tipo de desporto. "Com o 
Hubert, vou praticar desporto. Desde que fui promovido a Chefe do Departamento, 
tenho ido muito mais vetes tomar uma cerveja com o Heinz. E desde que me mudei 
de Bona para Berlim, nunca mais vi o Robert." Amizades condicionadas a um 
objectivo?  triste. Com algum a quem no tenho nada a diier, no gostaria nem 
de ir tomar um copo, nem de fa er jogging pelos campos. E vice-versa, talvez os 
homens no gostem que se lhes v ja para alm da sua fachada. Quem no se abre, 
no se torna vulnervel, permanece forte, pelo menos nas aparncias. No entanto, 
por vetes,  bastante agradvel pertencer ao grupo dos fracos.
97
UM SONHO SOBRE QUATRO RODAS
No se tratava apenas de um Mercedes Cabriolet que Markus comprara para o seu 
quadragsimo aniversrio, era um Mercedes Cabriolet da melhor qualidade. Por 
fora, preto metlico, por debaixo do capot, um motor de seis cilindros de 218 
cavalos e tudo isto, sobre pneus de 51cm, enobrecido com jantes BBS, em metal 
ligeiro. No interior, pele clara e um equipamento de som espantoso, com oito 
altifalantes da melhor qualidade.
Quando o foi buscar sentiu-se perdido de amores. Estava de facto apaixonado e 
tambm o admitiu, sem rodeios, perante a mulher. Um novo amor era picante, 
emocionante, misterioso. Foi exactamente assim que ele se sentiu em relao ao 
seu novo automvel. E alm do mais era bonito. Extraordinariamente bonito. 
Passava a vida  volta dele e temendo tornar-se com isso alvo de troa por parte 
da famlia, das primeiras vezes, dirigiu-se nele para fora da cidade, para 
clareiras em bosques afastados. Ali podia entregar-se ao desejo de adorar o 
carro novo, bater no peito de orgulho por o possuir, andar em roda do carro 
cheio de venerao e fazer festinhas ao de leve sobre a tinta novinha em folha.
101
Estava-se no incio de Maio, a Natureza explodia e Markus tambm, o seu esprito 
de iniciativa estava no seu melhor e sete dias depois do seu aniversrio props 
 mulher, Eli, ir de carro at Itlia. Imaginava ruas estreitas cheias de 
curvas, pia'-~Ze cheias de mulheres bonitas e pequenos restaurantes italianos. E 
tudo isto
no seu Cabriolet novo de capota aberta.
Eli adorou a ideia, mas exprimiu preocupao em relao a um possvel roubo e  
sua conta. Um carro caro e a juntar a isso, ainda umas frias caras, parecia-lhe 
luxo a mais. Markus reflectiu, lembrando-se ento de amigos dos velhos tempos, 
que, entretanto, viviam em Verona. Verona era o ideal. Isso mesmo, um verdadeiro 
passeio, nem demasiado longe, nem demasiado perto. E podia mostrar ao seu velho 
amigo e colega de escola, que era sempre o melhor, que tambm ele conseguira 
alguma coisa na vida.
Markus procurou e encontrou a morada. Eli ainda comentou que talvez fosse um 
pouco estranho, impingir-se para casa de pessoas com quem h anos no tinham 
contactado, mas Markus fez que no com a cabea. Os homens no tm esse tipo de 
problemas entre eles.
- Queres dizer que ns mulheres  que os temos? - inquiriu ela, num tom 
ameaador, mas Markus no se deixou arrastar para uma discusso. Aquele assunto 
era demasiado delicado para ele, que queria partir de frias sem discusses.
Pouco depois, j o assunto estava resolvido. Markus tirara trs dias de frias, 
pelo que na quarta-feira de manh cedo, j podiam partir de Stuttgart. Nos dias 
que se lhe antecederam, Markus estivera em permanente estado de alerta. Ouvia 
todas as previses meteorolgicas, imprimia constantemente os prognsticos da 
Internet e para o que desse e viesse, tambm j descobrira o nmero de casa de 
Maus.
102
Estavam com sorte. Anunciava-se um dia radioso. Desde a primeira hora viajaram 
de capot aberto.
- 0 tempo est a nosso favor connosco - observou Markus satisfeito e Eli 
confirmou:
- Tambm no merecamos outra coisa!
Chegaram a Verona  tarde. Klaus descrevera o caminho por fax a Markus e Eli 
lia-lho, enquanto Markus ia avanando de rua em rua. Estavam ambos radiantes de 
alegria, a viagem fora ptima, o automvel correspondia ao que Markus 
idealizara, tinham almoado bem pelo caminho e agora alegravam-se com a 
perspectiva daqueles dias juntos.
- Com os diabos - disse Markus, pois o local tinha um aspecto cada vez mais 
elegante, aquilo j no eram casas, mas autnticas residncias.
Lanou um olhar a Eli.
- Nunca esperei uma coisa destas do Klaus!
- Agora s faltava que ele tambm tivesse um novo Mercedes Cabriolet  porta - 
disse ela baixinho, mas Markus fez de conta que no ouviu.
No entanto, Markus tambm j no estava a achar graa nenhuma  histria de 
Klaus exibir tudo o que conquistara, e ainda por cima, a seu prprio pedido.
- Anima-te. - Eli pousara-lhe a mo no joelho. - Imagina que eles nos instalavam 
num quartinho de arrecadaes, ao lado do quarto de banho, num velho apartamento 
alugado! Assim, vamos com certeza para um quarto de hspedes como deve ser.
Primeiro, ele no disse nada, depois, algo contrafeito, disse:
- No o invejo. Afinal de contas, ns tambm no nos podemos queixar.
Avanaram mais um quarteiro e Markus acrescentou ainda:
103

- E alm disso ainda no chegmos.
- Estou cheia de curiosidade de conhecer a mulher dele - disse Eli, mudando de 
assunto.
- Devias era estar cheia de curiosidade por o conhecer a ele - opinou Markus. - 
No o conheces minimamente!
- Tens razo - disse ela. - S de velhas fotografias!
- Espero bem ainda o reconhecer. - Markus fez as contas. - Ainda assim passaram 
quase vinte anos - reflectiu. - E j naquela altura ele estava a comear a ficar 
careca!
- Querido... - Eli lanou-lhe um olhar de esguelha. - Nas fotografias ele tinha 
uma farta cabeleira preta. Curta, ao contrrio de vocs todos, mas de certeza 
sem nenhum indcio de careca!
- As fotografias enganam! - Markus fez um trejeito aos cantos da boca. - As 
fotografias levam sempre ao engano, isso  mais do que sabido!
- Ok! - Eli condescendeu. - Havemos de ver!
- Mas onde raio fica essa maldita rua! - Markus parou ao lado de um sinal de 
trnsito enferrujado, que, alm disso, estava quase dobrado ao meio. - Consegues 
decifrar isso? Rua via di... di...
Eli inclinou-se para fora do automvel e procurou ajud-lo.
- FL., qualquer coisa com Fi... mas pra a! Se continuas sempre a avanar, no 
consigo decifrar isto!
- Nmero 23,  o que . Agora s precisamos de os procurar e ler a tabuleta com 
o nome e daqui a nada j o vamos encontrar!
Seguiram pela rua fora, a qual era antiqussima e por conseguinte, em pssimo 
estado e pararam  procura do nmero 23.  direita e  esquerda viam-se casas 
romnticas, muitas delas rodeadas por muros de pedras toscas. Havia alguma 
verdura que crescia, viosa, trepando por aquelas pedras acima, cheia de vigor 
em busca de vida e de luz.
- No  uma beleza? - arquejou Eli, mas foi abafado pelo rudo do motor e, alm 
disso, Markus no s no via beleza nenhuma naquilo tudo, como antes pelo 
contrrio, o achava terrivelmente irritante.
Finalmente encontraram uma velha placa metlica, uma antiga e nobre vivenda 
tinha um 13 no porto.
-V-se mesmo que estamos em Itlia-disse Markus e comeou a contar as casas a 
partir do nmero 13.
-E o teu amigo parece ter-se adaptado bem, se  que, de facto, vive nesta rua!
Diante da casa que coincidia com o nmero 23, ele saiu do carro. Era uma grande 
casa branca em vidro e ao, surpreendentemente moderna naquele enquadramento.
- No  esta, nem precisas de sair do carro! - Markus sacudiu a cabea com um ar 
decidido. -  demasiado moderna. E olha s para isto, custa pelo menos uns 
quatro milhes!
- E quem sabe?! - Eli saiu do automvel e dirigiu-se  campainha.
- K. e K. Mayer - leu voltando-se para Markus. - Ele chama-se Klaus Mayer e a 
mulher dele, Karin. So eles!
- H tantos Mayers como gros de areia - contestou Markus. - Tambm se podia 
perfeitamente chamar Beyer ou Mller ou Chevalerie!
- Mas ele chama-se Mayer!
Markus lanou um olhar incrdulo  casa. Aquilo tambm j era descaramento. E 
tinham eles vindo at ali s para ter de admirar um edificio luxuoso como 
aquele. Antes tivessem ido at  Floresta Bvara ou ao planalto alpino de 
Zillertal ou a Stein em Allgdu, onde ele conhecia uma pousada simptica com um 
hoteleiro simptico. Ao menos teriam podido tomar qualquer coisa de jeito. No 
seu
104
105
carro novo, cheio de orgulho. Agora aqui, j no estava to seguro disso.
- 0 que  agora? - inquiriu Eli. Ela encontrava-se indecisa diante do grande 
porto, de dedo indicador em sentido diante do boto da campainha.
- Pois sim! - Ele seguiu-a.
- No seria melhor trancar j o carro? - perguntou Eli, que, tratando-se de 
automveis e facturas, no confiava minimamente nos Italianos.
- Por acaso ests a ver algum? - Markus olhou com uma
ateno exagerada para um e outro lado da rua. - De onde h-de
surgir um ladro, assim de repente?
- No fao ideia, mas tenho um estranho pressentimento! -Ahhh! - suspirou ele. - 
Poupa-me com os teus pressenti
mentos, ao menos desta vez!
- Ento est bem! - Ela tocou  campainha. - Afinal de
contas o carro  teu!
Pouco depois Klaus estava diante dela. Ela t-lo-ia reconhecido imediatamente. 
Ele tinha uns parcos cabelos brancos, mas tirando isso, estava igualzinho  
fotografia. Uns traos mais viris, mas ainda no tinha pneus na barriga. Um 
homem bem-parecido, sem sombra de dvida.
- Que bom ter-vos c! - Deu um aperto de mo a Eli. - A Karin est morta por... 
posso trat-la por tu? Se no torna-se to complicado!
Eli assentiu de imediato, pois achou-o logo muito simptico. Quanto a Markus, 
abraou-o sem cerimnia e ajudou-o a trazer a bagagem para dentro. Eli seguiu-
os, perguntando-se como  que Klaus conseguia ganhar tanto dinheiro. Com um 
trabalho normal no seria possvel uma coisa daquelas, pelo menos, na
106
Alemanha. Oxal ele tivesse herdado; isso no incomodaria tanto Klaus, do que se 
ele o tivesse conseguido com o seu prprio esforo. Ela sabia que Klaus tinha 
problemas com homens bem sucedidos, j para no falar das mulheres.
Uma mulher elegante veio ter com eles na ampla escadaria de pedra que conduzia  
casa. Trazia um vestido de Vero at aos tornozelos e os seus cabelos negros, 
pelos ombros, esvoaavam ritmicamente a cada passo.
Recebeu-os com um largo sorriso acolhedor e Eli tambm sorriu mas, mesmo  
distncia, viu que Karin era uma beleza romana. Adiantou-se de imediato, numa 
atitude desajeitadamente teutnica, embora no tivesse a inteno de deixar 
transparec-lo.
- Que bom ter-vos por c! - Karin falava um alemo sem sotaque, o que 
surpreendeu Eli.
Cumprimentaram-se com um aperto de mo e agora, de perto, Eli viu que eram todos 
sensivelmente da mesma idade. E tambm de certeza que ela no tinha menos de 
trinta e cinco anos.
- Mas agora entrem, preparei-vos uma pequena refeio!
A casa era de sonho. Era como num filme. Ou talvez isso se devesse ao facto de 
Eli s conhecer esse tipo de casa atravs dos filmes. Uma nica diviso, cheia 
de luz, abria-se para um dos lados, sobre um grande terrao e um bonito jardim. 
Gigantescos quadros modernos nas altas paredes brancas e cho de mrmore para 
onde quer que olhassem. A sala subdividia-se em vrios nveis, num dos quais 
estava uma cozinha aberta, noutro, um pouco mais abaixo, encontrava-se uma 
comprida mesa com cadeiras altas, mais ao fundo encontravam-se grupos de 
cadeiras brancas diante de uma lareira. No terrao fora posta uma mesa, e sobre 
a toalha branca havia pequenas travessas com antipasti e vrios copos de p 
alto.
- Estou impressionada - disse Eli, e de facto, estava-o.
107
- Foi uma herana? - perguntou Markus directamente.
Eli achou a pergunta embaraosa, mas tambm a percebia. Ha
via tantas classes acima do que ela conhecia e podia imaginar, que
tambm lhe interessava sab-lo.
Klaus riu, no parecendo nada incomodado com o assunto. -  Karin que tem 
sucesso, s isso!
Markus lanou um olhar a Eli, que ela interpretou como: Ests
a ver, porque  que no consegues fazer o mesmo? Mas tambm podia ter
querido dizer: Nunca aceitaria nada de uma mulher! Havia de lho per
guntar mais tarde.
- E ento, o que fazes assim com tanto sucesso? - A pergunta tinha algo de 
desdenhoso, da forma como Markus a fez. Assim como se as mulheres s pudessem 
ganhar dinheiro por acaso ou pela sua beleza.
- Posso apostar que trabalha na rea da moda?  ex-modelo? Ela evitou a 
provocao ofensiva com uma gargalhada encantadora.
- Muito obrigada - disse. - Nunca tive vocao para modelo, no, sou engenheira 
qumica. Trabalho para um laboratrio farmacutico, fiz algumas descobertas no 
sector da bioqumica, registmos a patente, e entretanto, tambm somos 
produtores. Alm disso, o Klaus  o Administrador da nossa empresa.
Klaus sorriu ironicamente e apontou para a mesa.
- E que tal se nos sentssemos?
- Qumica? - Markus olhava-o com os olhos muito abertos. - Eh, meu velho, mas a 
Qumica foi sempre o teu cavalo de batalha! Quem  que fazia sempre os teus 
trabalhos? Era eu, no era?
- Pois , ests a ver como so as coisas! - Klaus abriu uma garrafa de Prosecco. 
- E agora  a Karin que o faz. A Karin  a cabea, eu sou apenas o homem das 
contas!
108
Eli sentara-se e no dissera mais nada. Aquilo era mesmo extraordinrio. Uma 
mulher que conseguia fazer tanto dinheiro com
 seu prprio esforo. Depois da prova geral de acesso  universidade tambm ela 
tivera belas ideias, mas depois fugira para um emprego, no qual, de certo modo, 
se refugiara. Um nicho que podia controlar, nada de especial, mas algo que podia 
dominar com um olhar. Um emprego que lhe garantia o dcimo terceiro ms, que lhe 
permitia passar as suas frias anuais nas Maldivas, e no Inverno, alguns fins-
de-semana na penso da sua infncia em Arl berg. Aqueles eram os seus limites, 
ela no pedia mais do que isso, nem no decorrer dos ltimos anos lhe passara 
pela cabea ultrapassar esses limites. E ali estava uma mulher, ainda por cima 
bonita, que simplesmente arriscara algo e ganhara.
Ela olhou para Markus que bebia o seu primeiro copo. Aquilo iria p-lo fora de 
si, j se sabia. Ele conseguira chegar a Chefe de Departamento na grande empresa 
de artigos elctricos onde trabalhava e especulara sobre mais uma promoo, mas 
j chegara aos quarenta anos e aos quarenta, uma pessoa j devia ter percorrido
        seu caminho ou j ter mexido os cordelinhos certos.
Eli observava-o e sentia pena dele. No tinha qualquer hiptese contra o seu 
colega de escola. Tal como no passado, Markus trabalhava honrada e 
persistentemente, esforando-se por alcanar um pouco de xito e Klaus agarrava 
no que vinha ao seu encontro e ultrapassava-o. Oxal isso no lhe roubasse a 
alegria que sentia pelo seu automvel novo.
- Que belo Mercedes Cabriolettrouxeste -disse Klaus, erguendo
        copo. -  novo?
- Novinho em folha - confirmou Markus, e a cor voltou-lhe ao rosto.
- Quantos cavalos?
109
- 218. Seis cilindros!
- Uaauuu!
Markus e Klaus sentaram-se ao lado de Eli e Karin apontou para as travessas.
- Por favor sirvam-se, h aqui muita comida!
Klaus voltou a encher os copos.
- Talvez a seguir possamos dar um giro, s entre homens? - Lanou a Eli um olhar 
interrogativo.
- Mas  claro, estejam  vontade!
Eli alegrou-se. Isso restituiria o nimo a Markus e, entretanto, ela tambm 
poderia perguntar alguma coisa a Karin. Uma mulher e Qumica. Parecia-lhe uma 
loucura, pois odiava Qumica. E Fsica. No entanto, achava bom quando apareciam 
mulheres que venciam nessas reas com tanto sucesso.
A conversa foi excelente, Markus e Klaus contaram episdios dos velhos tempos e 
o lcool tambm contribuiu, de modo que foram ficando cada vez mais divertidos e 
alegres.
- Com tantos objectos de valor, no tm medo dos ladres? - Eli apontou para a 
casa. - Estamos sempre a ouvir tanta coisa!
Karin riu.
- Na realidade no me parece que na Alemanha haja menos assaltos e roubos do que 
aqui. Ainda no tivemos problemas nenhuns! E se isso acontecer-encolheu os 
ombros - ento temos um seguro!
- Tambm no tiveram problemas com automveis?-inquiriu Markus, de repente de 
ouvido atento.
- Nunca nos aconteceu roubarem-nos o carro. - Karin piscou-lhe o olho. - 
Possivelmente tambm no temos a marca que lhes interessa ou talvez at agora 
tenhamos simplesmente tido sorte!
110
- Simplesmente no confio nos italianos - disse Markus, encolhendo os ombros.
-Eu tambm sou italiana- Karin sorriu. -E nunca intrujei ningum em toda a minha 
vida!
- Markus! - avisou Eli.
- E se fssemos dar uma volta pela aldeia? - Klaus olhou interrogativamente para 
Markus. - Ainda ests em condies?
- Se, o carro ainda l estiver, sim - respondeu Markus e fez um equvoco sorriso 
irnico.
Eli teve vontade de lhe dar um pontap por baixo da mesa, mas tencionava 
desculpar-se, ao menos, junto de Karin. s vezes ele era mesmo um grande 
malcriado. Devia ser, com efeito, por amor, que ela ainda estava a seu lado.
Os homens ergueram-se e Karin sorriu a Eli.
- Agora  que nos vamos instalar  vontade. Tenho um vinho branco delicioso no 
frigorfico e ainda algumas antipasti da arca do tesouro da minha peixaria!
- Faz isso - Klaus deu-lhe um beijo. - E ns vamos ao Luigi beber um copo  
sade do carro novo. E das nossas mulheres!
Eli contemplava-o. Trazia um simples plo e uns jeans e no entanto irradiava 
estilo e bons modos. Seria dos pases? Ficariam os alemes marcados pela 
Alemanha? E teria um alemo um comportamento diferente no estrangeiro?
Ainda no encontrara qualquer resposta a estas perguntas e j Klaus e Markus 
estavam de volta.
- Chama a Polcia, Karin - disse Klaus com uma expresso alterada pela aflio. 
- 0 carro desapareceu!
- Mas isso ... - Eli ergueu-se de um salto.
Markus no dizia absolutamente nada. Estava branco como a cal da parede e Eli 
receou que ele fosse desmaiar. Mas depois recu
111
perou as cores, corando e dando a impresso de estar prestes a explodir.
- Eu no disse?-gritava. - Estupores de italianos. Cambada de miserveis!
- Por favor! - Eli agarrou-lhe os braos. - Por favor controla-te.  s um 
carro...
- 0 que  que isso quer dizer,  s um carro?  o meu carro! 0 meu precioso e 
maldito carro, que me custou os olhos da cara! E agora, quem  que mo devolve? - 
Estava completamente fora de si. - Anda, Klaus, temos de o procurar!
Klaus ergueu os braos.
- Procurar? Sim, mas onde? Mas o carro no tinha nenhum alarme?
-  claro que tinha. S Deus sabe como  que eles conseguiram! Mas, agora, isso 
tambm no interessa, desapareceu. Novinho em folha! D vmitos!
E era tambm exactamente esse o aspecto que ele tinha. Eli queria oferecer-lhe 
uma cadeira mas ele no despregava o olhar de Karin, que saa de casa com o 
telefone colado ao ouvido.
- 0 que dizem? Encontraram-no?
- Temos de l ir, com o bilhete de identidade, a carta de conduo e os 
documentos do carro!
- Os documentos, os documentos. Isto no  melhor que na Alemanha! No existe 
aqui uma mfia que pudssemos encarregar de uma coisa destas?
- Como? - Klaus no pde deixar de rir. - Para nos devolver o carro?
Markus suspirou profundamente e deixou-se cair na cadeira mais prxima.
- 0 que farias se te raptassem um filho? - Eli sentira-se de sbito impelida a 
fazer a pergunta.
112
Achara a reaco dele de certa forma exagerada. 0 automvel estava no seguro, 
acontecera, era um aborrecimento, mas no era nenhuma fatalidade.
- Filho? No temos filho nenhum. Mas que disparate ests tu para a a dizer! - 
Ele olhava-a de lado, depois voltou a erguer-se de um salto. - Bem, ento toca a 
ir para a Polcia. De que  que ainda esto  espera?
Meia hora depois encontravam-se sentados diante de um carabinieri, que 
dactilografava lentamente, com um dedo de cada mo, o que Karin lhe ditava em 
italiano fluente.
- 0 que se passa? - interrompeu-a Markus. - Ele tem o automvel? - E virando-se 
para o funcionrio, dizia-lhe, gesticulando. - Um Mercedes Cabriolet, novo em 
folha. Negro metalizado. Pneus largos, um assombro. Tem de dar nas vistas. No 
pode desaparecer assim to facilmente!
- Meu senhor! - 0 policia ergueu o olhar, pousou a mo direita sobre um monte de 
papis  sua frente, levantando um a um com o polegar e o indicador. -jaguar, 
Mercedes, BMW, um jaguar, um Porsche, um Audi, um BMW - dizia ele em excelente 
alemo. - Tudo hoje. E aqui um Ferrari. Um bom dia para os ladres. Deve ser do 
clima. Um mau dia para ns. E para si!
Baixou de novo o olhar e continuou a introduzir dados lentamente.
Karin desmarcara a mesa reservada num restaurante para aquela noite. J ningum 
tinha fome. Markus teria preferido ir-se logo embora. S a esperana de um 
milagre o retinha na vivenda. Klaus fazia tudo o que podia para o animar. Ao 
aperceber-se que s uma forte bebida alcolica poderia ajudar, agarrou na 
garrafa de usque. A dada altura esta estava vazia e os dois homens 
completamente alcoolizados.
113
Eli sentara-se com Karin defronte da lareira. Eli cada vez mais achava que Karin 
era uma mulher notvel e queria saber tudo acerca dela. Era mais velha que 
Klaus, quarenta e trs anos, fizera dois doutoramentos e dava aulas na 
Universidade ao lado do seu trabalho no laboratrio da prpria empresa. Eli 
estava fascinada e pediu-lhe para a acompanhar uma vez. Talvez ainda devesse dar 
o salto para a sua profisso preferida, depois da sua PGA.
Que profisso tinha sido, inquiriu Karin. Piloto. Era boa a Matemtica, embora 
tivesse algumas dificuldades a Fsica. E na juventude passava a vida nos 
aeroportos.
Mas os pais tinham-lhe negado at mesmo o desejo de aprender a planar. Isso era 
uma coisa para rapazes. E tambm a escolha da profisso fora sempre 
feminilizada. Piloto estava fora de questo, quando muito, hospedeira. Mdica 
era igualmente impensvel, o apropriado seria se fosse assistente de mdico ou 
enfermeira. Assim entrara para a empresa do tio como secretria.
- E depois? - perguntou Karin. - No tiveste nenhuma oportunidade de promoo, 
j que se tratava do teu tio?
- Nunca me preocupei com isso!
- H quanto tempo trabalhas l?
- Desde que sa da escola.
- Ento sabes como funciona a empresa...
- De cor e salteado!
- 0 teu tio tem filhos? - No!
- Ora, a est!
- Como? - Eli olhava-a com uma expresso interrogativa mas no obteve qualquer 
resposta.
Elas olharam-se nos olhos, at Eli estender a mo para o copo.
-  tentar! - disse Karin fazendo-lhe um brinde. - Basta apenas querer!
114
- Sim!
Eli j no se importava que o Mercedes Cabriolet tivesse sido roubado. Se no 
tivesse sido isso, nunca teria podido falar assim com Karin. Quando nessa noite 
se foi deitar, Markus ainda praguejou uma boa meia hora sobre os malditos 
italianos, mas ela sorria. Em breve teria uma conversa com o tio. Era verdade. 
Ele fizera sessenta anos e no tinha nenhum sucessor. Ela ainda nem quarenta 
anos tinha e conhecia a empresa. Poderia gerir a empresa e podia adquirir os 
conhecimentos que ainda lhe faltassem. Adormeceu com um misto de gozo antecipado 
e nervoso miudinho.
De manh cedo, Klaus entrou de rompante no quarto deles sem bater  porta. Eli 
endireitou-se logo, Markus mal podia abrir os olhos.
- 0 vosso carro j c est outra vez!  inacreditvel! Est em frente da porta, 
exactamente como vocs o tinham deixado ontem!
Eli precisou de um segundo para se aperceber onde estava e do que se tratava, 
depois sacudiu Markus.
- Ouviste? 0 teu adorado Mercedes Cabriolet j est de volta!
Saltou da cama. Com que ento, o automvel j l estava? No podia acreditar. 
Mas no tinha ela a certeza que ainda ontem fora roubado?Que ladro fatia uma 
coisa dessas?!
Ela no esperou por Markus, indo, tal como estava, toda amarrotada e de pijama, 
atrs de Klaus. E, com efeito, l estava o carro deles, na rua. Totalmente 
intacto, muito bem estacionado, com a capota aberta. Ela ouviu Markus a descer a 
escada de pedra atrs de si. As suas pesadas passadas de ps descalos, 
lembravam-lhe um urso e quando se voltou para ele, decidiu comprar-lhe logo que 
pudesse um pijama em condies. A velha T shirt e os shorts usados estavam 
realmente indecentes. At mesmo para uma mulher apaixonada.
115
- Ele est outra vez aqui - gritou exultante de alegria, desceu a correr os 
degraus que faltavam e lanou-se fascinado para dentro do descapotvel, 
saltando-lhe por cima. - Mas onde estiveste - cantava ele. - Oh, como estou 
feliz!
Eli foi ter com ele.
- Se te alegrasses assim quando chego a casa - disse-lhe baixinho - seria...
- No percebes nada disto! - interrompeu-a levantando para ela um olhar 
sonhador. - As mulheres no tm ideia do que  uma coisa destas!
- Ai, sim! Pois, deixa estar! - disse ela, voltando-lhe as costas. No banco do 
condutor viu um envelope. Agarrou nele. - O que  isto?
- Cuidado, uma bomba! - gritou Markus, mas Klaus limitou-se a rir.
-j  tempo de acabares com isso! Eles no te iam devolver o carro para depois o 
fazer explodir. Ser-lhes-ia bem mais fcil... - Ento deixa ver!
Markus endireitou-se e estendeu a mo aberta para Eli. Eli deu-lhe o envelope. 
Entretanto tambm Karin se juntara a eles. Estava com um roupo leve e observava 
a cena com uma certa reserva. Markus rasgou o envelope e retirou uma carta de l 
de dentro.
- No consigo ler! - disse impaciente e deu-a a Karin.
- Muito obrigada - traduziu ela fluentemente - por esta volta maravilhosa. Um 
belo automvel, este Mercedes Cabriolet. Tambm ns, como patriotas italianos 
que somos, o temos de reconhecer. Em sinal de reconhecimento pela viagem de mil 
quilmetros, aqui ficam quatro bilhetes para a pera ilida de Giuseppe Verdi. 
Esperamos que se divirtam e desejamos uma continuao de boa viagem no vosso 
automvel de sonho!
116
Fez-se silncio por uns breves instantes.
-  mesmo isso que a est? - perguntou ento Markus, desconfiado.
Eli olhou para ele. Estava com pssimo aspecto, com a barba por fazer, com 
aquelas roupas horrveis e com o efeito da ressaca do usque estampado no rosto.
Sem uma palavra, Karin deu a carta a Klaus, enquanto Eli agarrava no envelope 
que Markus tinha na mo.
- Mas  claro que sim - disse ela. - Aqui esto tambm os bilhetes! Ainda 
existem boas maneiras?
- Os mafiosos so mesmo homens de honra - acentuou Klaus. - Al Capone envia os 
seus cumprimentos!
-  inacreditvel!
Markus no conseguia afastar-se do automvel, mas Karin e Eli foram para dentro 
de casa para fazer um caf.
- De manh preciso de um egresso antes de mais nada, se no no dou uma para a 
caixa - esclareceu Karin.
Eli estava ao lado dela.
-j alguma vez ouviste falar numa coisa destas? Roubam um carro e agradecem com 
bilhetes para a pera!  normal uma coisa destas em Itlia?
Karin tirou quatro xcaras do armrio.
- Normal, normal - disse ela. - Aqui tudo  possvel. Para o bem e para o mal. 
Algumas coisas so bvias, noutros casos, no se sabe o que est por detrs. 
Umas vezes  de uma maneira, outras de outra. Como em toda a parte!
Eli ajudou-a a pr a mesa do pequeno-almoo.
- Para dizer a verdade, estou estupefacta. No poderia imaginar uma coisa destas 
na Alemanha. Devolver um automvel? Com bilhetes to caros? Por es ,-e preo 
tambm podiam alugar um!
117
Karin no respondeu.
- Ou  pela excitao da coisa em si? Afinal de contas, isso tambm  perigoso. 
Uma pessoa tambm podia ser apanhada no acto da devoluo!
- Quem sabe?
- Seja como for acho espantoso! Querem vir connosco  pera? - Se quiserem!
Eli acenou veementemente com a cabea. - Seria maravilhoso!
Normalmente Markus preferiria ir a um jogo de futebol do que a uma pera, mas o 
golpe fora simplesmente brilhante e apetecia-lhe colaborar no jogo.
- Um jogo entre homens -dizia ele no sbado a Eli, enquanto se arranjavam para a 
noite. - Possivelmente estaro sentados ao nosso lado durante o espectculo, s 
que ns no os reconhecemos!
Para Eli essa no era exactamente a perspectiva mais atractiva, portanto 
decidiu-se a no pensar mais nisso. Graas a Deus pusera na mala um fato preto e 
sandlias de tiras, o que podia servir de toilette de noite. Markus tinha um 
smoking emprestado por Klaus, que lhe estava um pouco  justa na barriga, mas 
que tinha o comprimento certo, que era o mais importante.
Assim dirigiram-se de txi para a arena, onde a Aida teria lugar. 0 tempo estava 
fantstico, as pessoas apressavam-se festivamente vestidas para o recinto em 
torno do descomunal teatro ao ar livre.
Entraram e encontraram os seus lugares que, com efeito, eram esplndidos. 
Encontravam-se l dentro, rodeados por toda aquela multido e Eli mal podia 
acreditar:  sua volta, antes do espectculo e nos intervalos, havia vendedores 
de gelados e bebidas a apregoar as suas mercadorias, correndo ao longo das 
filas. Estava muito calor, muita gente e muito barulho.
118
Eli saboreava cada pormenor daquela atmosfera especial e do espectculo. Markus 
desabotoara discretamente o seu casaco, agora podia respirar mais  vontade e 
sentia-se melhor. Karin estava sentada ao lado de Eli e Maus, ao lado de Markus. 
Eles explicavam baixinho um ou outro pormenor do enredo e quando o aplauso final 
atroou, Eli achou que aquela tinha sido uma das noites mais bonitas de sempre. 
Fora simplesmente indescritvel. Decidiu fazer algo mais da sua vida.
Klaus reservara uma mesa num restaurantezinho tpico. Karin desaparecera logo na 
cozinha e trocara umas palavras com o cozinheiro. Estava tudo delicioso. 0 
cozinheiro fora atend-los pessoalmente, mandando servir coisas que no 
constavam da ementa e no fim fez um preo que Markus pde pagar sem pestanejar.
No caminho de regresso a casa Eli aconchegou-se de encontro a ele. Pressentia 
que teriam mais uma noite maravilhosa. Apetecia-lhe ir para a cama com Markus e 
a ele apetecia-lhe ir para a cama com Eli.
- E se o carro tiver desaparecido outra vez? - murmurou-lhe ela ao ouvido.
- Nesse caso veremos que surpresa l encontraremos amanh - respondeu-lhe ele em 
voz baixa.
- Talvez a Claudia Schiffer?
- Prefiro-te a ti!
Beijaram-se.
Markus, que se encontrava ao lado de Eli, pigarreou.
- Ao que parece, j no precisamos de tomar uns copos para dormir bem esta 
noite, pois no?
-  isso mesmo - confirmou Eli num tom sarcstico.
- Fico contente por vocs - disse Karin. - E alm disso, Markus, o teu carro 
ainda l est!
119
Acabavam precisamente nesse momento de entrar na rua e a casa ficara  vista. 
Markus olhava em frente, por entre os apoios de cabea dos bancos.
- Tens razo! Que alivio! Vou ter de arranjar uma garagem
transportvel!
Todos riram.
- Mas como  que h luzes acesas em vossa casa? - inquiriu Markus, ento. - 
Quando samos, o dia ainda estava claro, no estava? Ou vocs tm um sistema 
automtico para acender as luzes?
- Como? - Karin, que acabara de escolher uma nota no seu porta-moedas, para 
pagar ao taxista, erguia agora o olhar. - Luzes?
- Realmente! Mas que estranho!
Klaus saiu, logo seguido pelos outros. 0 porto que dava para a escadaria estava 
apenas encostado. Os quatro subiram as escadas, com um estranho pressentimento. 
A grande porta envidraada e corredia que dava para o terrao, estava aberta, 
um papel branco do tamanho de um poster estava colado na janela.
"Espero que tenham passado um belo sero com a Aida" estava escrito, de forma 
bem visvel, em grandes letras negras.
A vivenda estava completamente vazia.
120
Frivolidades
Todos tm as suas frivolidades, mesmo que no o reconheam. Mesmo aqueles, ou 
precisamente aqueles que fa,-em alarde de no serem fteis, alimentam uma grande 
futilidade. Quem se faZ ainda mais repelente do que , preocupa-se em ser 
reconhecido como o mais repelente de todos, candidatando-se a entrar para o 
livro do guiness.
Mas fa<er abertamente alarde de uma verdadeira frivolidade tambm pode ser 
horrvel- o pente de plstico com dentes verdes no bolso das calas, os lbios 
retocados aps cada dentada, o espelho retrovisor voltado para o chauffeur e a 
necessidade de apregoar aos quatro ventos o incrvel sucesso que se tem no 
trabalho.
Mas quem tem mesmo a vida dura so as celebridades. Se ainda no so verdadeiras 
celebridades, tm de estar sempre expostas s cmaras, afim de subirem  
categoria de verdadeiras celebridades. Mal uma pessoa, aps um trabalho rduo, 
chega finalmente s lutes da ribalta das verdadeiras celebridades, sendo 
admirada por estar sempre em todas as revistas e em todas as festas, o resultado 
 uma figura medocre que lhe rouba o lugar no espectculo.
E agora pe-se a questo de saber se somos suficientemente presunosos para nos 
colocarmos ao lado de um mecnico desempregado, a quem at h pouco ainda no se 
apertou a mo.  o que fa fem os que so realmente fr valos. Basta olhar para 
cada fotografia e programa televisivo com Zlatko
Trpkovski.
121
A minha mulher era natural da Subia. Era um amor, mas tinha um seno, 
controlava excessivamente o meu dinheiro. No digo que isso tenha sido sempre 
mau, pois eu, como renano que sou, at tenho tendncia para desperdiar, mas 
isso, por vezes, tornava-se enervante. Ou confrangedor, ou ambas as coisas.
Para ela, a vantagem que isso tinha no nosso casamento de dez anos era eu no 
conseguir ter nenhuma amante. No teria conseguido mesmo. As finanas estavam a 
cargo da minha mulher. Seria obrigado a arranjar um exemplar rico e 
provavelmente, mesmo nesse caso, ter-lhe-ia podido oferecer muito pouco.
No quero dizer com isto que no tivesse nenhuma auto-estima, mas tenho mais 
tendncia para uma avaliao realista, de acordo com a qual um homem com mais de 
cinquenta anos, barriga e com grandes entradas, tem um ar severo aos olhos das 
raparigas novas, e est mais disposto a abrir os cordes  bolsa. De um ponto de 
vista realista, uma mulher rica, na minha idade, tambm arranjaria de 
preferncia um jovem atraente. Assim foi que, graas ao esprito
125
de poupana da minha mulher, nunca tive a oportunidade de o fazer.
Alm disso, a minha mulher conhecia muitos outros subios. Na verdade, por todo 
o mundo. Quando eles ameaavam vir visitar-nos e diziam que estavam  procura de 
alojamento, podia sempre pr as culpas no nosso co. Babava-se, dormia de 
preferncia na cama de hspedes e por vezes acontecia no se conter, devido  
idade, e fazer chichi dentro de casa. Isso afugentava-os a todos, apesar de, at 
 data, nunca termos tido um co. A minha mulher  doida por gatos, mas 
curiosamente, na cama, d preferncia aos gatos sem dentes.
Quando comemos a fazer planos sobre as nossas frias de Vero, votei pelo Mar 
do Norte. Alm disso essas frias coincidiam com o nosso dcimo aniversrio de 
casados. Eu tinha, de certo modo, expectativas bastante romnticas para festejar 
o nosso compromisso matrimonial. Ao ar livre, de impermevel, rodeados pelo 
bramido das ondas do mar, enregelados por uma brisa fria. Isso teria, alm 
disso, a vantagem de eu prprio j no ter de me empenhar tanto.
A minha mulher insistia em ir para a Malsia. Um colega de escola, um subio 
poupado e seu eterno admirador pusera a casa  disposio dela e de mim - dado 
que, de outro modo, ela no iria. Eu estava cptico, tanto mais que no me dou 
nada bem nos trpicos, fico logo todo vermelho em vez de bronzeado e ao fim de 
trs dias pelo que nem uma cobra-de-gua. Se  que estas mudam de pele.
Mas a Jutta estava entusiasmada, disse logo que sim, sem eu ter sido tido nem 
achado, e depois disso nada a podia demover. As frias estavam decididas, o 
nosso romance de dez anos teria o seu apogeu na Malsia.
126
0 Jrgen, o colega de escola dela, foi buscar-nos. Deu para ver, desde o 
primeiro momento, que ele ainda estava ardentemente apaixonado pela minha 
mulher. Provavelmente s estava  espera, l na Malsia, que eu fosse at ao 
Jordo, ou neste caso, ao Temengui... No o incomodava nada que a mulher dele 
tambm l estivesse e, ainda menos, que, h dez anos atrs, eu tivesse levado a 
melhor junto de Jutta e no ele.
Pelos vistos, ele devia ser dotado de uma rara ndole resistente a toda a prova 
e pouco tempo depois, tambm deu para perceber de uma rara capacidade para 
economizar. Na verdade, a sua parcimnia tinha uma particularidade especial: 
poupava o meu dinheiro.
Desde o princpio que tive dificuldade em instalar-me no quarto de hspedes 
deles mas, entre subios,  bvio que no se gasta dinheiro em aposentos 
estranhos enquanto houver algures uma tenda de escuteiro livre. Isso no tem 
nada a ver com a idade, at mesmo a me de oitenta anos  instalada numa enxerga 
de palha gratuita,  uma questo de atitude. 0 dinheiro no cai do cu e muito 
menos se for gasto. Portanto ali estvamos ns, a Jutta e eu naquele quarto de 
hspedes, onde se ouviam todos os rudos, e por outro lado, de to reduzidas 
dimenses, que eu no me atrevia a aproximar-me dela com intenes amorosas, tal 
era o meu receio que o Jrgen ouvisse os arrulhos dela. Pouco antes, ele tinha-
nos mesmo mostrado a sua arma-para-pr-fora-de-combate, uma arma qumica em 
forma de .rpray e no sei porqu, mas tive a sensao de que no se tratava ali 
de assaltantes, mas antes de maridos indesejveis.
Jutta riu-se dessa ideia, achando que eu estava a sonhar com ladres. Dei-lhe 
razo. 0 que no faz uma pessoa ao fim de dez anos de casada. Mas depois da 
segunda noite, fiquei alrgico, quando voltmos a ser arrastados para um hotel 
onde havia um bufete em conta.
127
Passei horas na classe econmica de um avio superlotado para Kuala Lumpur, 
porque queria experimentar a comida asitica, viver  moda asitica e de alguma 
forma sentir-me asitico. E agora encontrava-me num restaurante maioritariamente 
cheio de alemes num hotel maioritariamente ocupado por alemes, com comida 
proveniente de uma cozinha internacional, servida por uma inglesa e 
confeccionada por um cozinheiro italiano.
Procurei explicar ao Jrgen que preferia gastar um pouco mais, mas em 
contrapartida queria ir a um restaurante verdadeiramente tpico. Mas como cometi 
o erro de deixar bem claro que o Jrgen e a mulher eram os meus hspedes durante 
a nossa estadia em casa deles, a coisa deu para o torto. Ele cuidava do meu 
dinheiro, se bem que na realidade pensasse na herana da Jutta. Seja como for, 
no tinha qualquer hiptese.
Ao terceiro dia, tambm Jutta estava farta, esgueirmo-nos para o nosso quarto 
de hspedes para uma sesso conspirativa. Conversmos em voz baixa sobre as 
medidas a tomar. Afogar os nossos anfitries ou partir antecipadamente para o 
hotel de Bornu onde fizramos uma reserva para passarmos as nossas frias. 
Decidimo-nos maioritariamente por esta ltima. No foi fcil organizar tudo isto 
s escondidas, mas os subios so muito criativos, quando  do interesse deles. 
E como desta vez o interesse coincidia com o meu, isto , rasparmo-nos dali o 
mais depressa possvel, dei um total apoio  minha subia nas suas actividades 
secretas, cobrindo-a com rudos, enquanto ela sussurrava ao telefone com a 
agncia de viagens e concordava incondicionalmente com tudo, mesmo com o 
exorbitante preo do voo.
Jutta reservou voos e anunciou na quarta manh que infelizmente tnhamos de 
partir, o que naturalmente nos deixava inconsolveis. Jrgen fez tambm uma 
expresso bastante consternado.
128
Mas ns ainda no tnhamos visto isto e aquilo, nem provado isto e aquilo. 
Tratava-se de mais bufetes e demos a entender, com um ar consternado, que era 
realmente uma pena, mas que tnhamos de renunciar a isso.
No nosso quarto demos largas a uma dana primitiva ao culto da fertilidade, 
executada silenciosamente em torno da cama, pois dali para a frente as coisas s 
podiam correr melhor. No hotel amos finalmente poder atirar-nos um ao outro e 
fazer amor ruidosamente  nossa vontade, comer at mais no poder e, sem dvida, 
tudo o que a cozinha nativa tivesse para oferecer. Estvamos decididos a no nos 
deixarmos intimidar perante nada, fossem macacos ou cobras, tarntulas como 
petiscos e a aceitar de bom-grado larvas brancas gigantes ao pequeno-almoo como 
estimulantes da potncia, fosse o que fosse, conquanto pudssemos ficar longe 
sobretudo da Liga das Maultaschen.
 tarde o Jrgen comeou a rondar  nossa volta, como se estivesse a incubar uma 
doena incurvel e  noite ficou claro que, de facto, se tratava de uma doena 
mesmo funesta. A mulher tambm fizera uma reserva. No mesmo hotel. Surpresa. 
Surpresa! Saltava  nossa volta como o Rumpelstilzchen em torno da fogueira 
enquanto eu, sentindo nascer em mim instintos assassinos, ruminava no modo como 
poderia tornar reais as chamas imaginrias e atir-lo para o meio delas. Nada 
resultou.
Encontravam-se sentados ao nosso lado no avio da noite e encomendavam pela 
terceira vez o jantar, apesar de ser intragvel, porque era de graa. Embalaram 
conscienciosamente as sobras em folha de Glad trazida de casa, pois nunca se 
sabia se no viria a ser preciso.
Intimamente esperava que na vizinhana da praia solitria onde supostamente se 
encontrava o nosso hotel, no existisse nenhum
129
1
outro hotel, pelo menos nenhum que servisse comida europeia. No sou dado a 
crueldades, mas naquele momento teria efectivamente deixado o Jrgen sozinho no 
meio de todas os seus pitus de bufete.
Jutta pousara-me apaziguadoramente a mo no joelho. Sei o que isso quer dizer, 
qualquer coisa do gnero: Pacincia, deixa estar!Todavia a minha pacincia j se 
tinha esgotado, pois devido  alimentao rica em gorduras j engordara dois 
quilos e tinha um mal-estar geral.
Os meus pressentimentos estavam certos, pois eles tinham reservado o quarto ao 
lado do nosso. Quase desmaiei. Jutta pousou-me a mo no joelho e eu pousei-lhe a 
minha no peito. Em resposta recebi um murro nas costelas. De qualquer modo, 
esperara uma festa diferente pelo nosso dcimo aniversrio de casamento. Jurei-
lhe que no teria qualquer espcie de considerao por ouvidos vizinhos, que 
queria finalmente dormir com ela pelo menos da mesma forma que o fazamos 
ocasionalmente em casa. Ela riu compreensiva, mas, tambm, um pouco como uma me 
que sorri para encorajar o filho de joelhos esfolados.
- Isso j se arranja - disse ela, o que me deu vontade de a esganar.
Isso j se arranja. At parecia que se tratava de uma massa fermentada que no 
crescia ou de uma ndoa de doce na blusa da primeira comunho. Eu no queria 
arranjar nada, eu queria sexo, e melhor dizendo, puro. Isso j se arranja, s me 
apetecia fugir.
Mas conseguimos. Nessa noite fomos juntos a um restaurante asitico. Fora uma 
vitria retumbante, pois no dia seguinte, ambos estavam doentes. No estavam to 
habituados  cozinha asitica como ns, que de tempos a tempos amos a um 
restaurante tailands ou vietnamita em Stuttgart e pouparam-nos ao seu eterno 
BreZel com manteiga ao pequeno-almoo.
130
Estava triunfante. A vitria do estmago liberal e internacional sobre o 
nacional-teutnico. Espermos e tivemos sorte.
At  noite nenhum dos dois deu sinal de vida e ns esgueirmo-nos dali, 
procurando o restaurante mais afastado do complexo hoteleiro, um pequeno e caro 
templo de gourmets e aconchegmo-nos l escondidos no canto mais afastado.
- Custe o que custar, hoje vamos comer e saborear tudo - disse eu e mandei vir 
um prato incrvel com tudo o que o mar e a cozinha tinham para oferecer.
Ramos como crianas sobre disparates sem sentido e brindvamos ao festim com 
champanhe francs, um luxo divinal puro, quando ouvi uma voz atrs de ns.
- Meu Deus que longe vos instalaram e vocs no se importaram;'- exclamaram 
ambos ao aparecerem atrs de ns como que guiados por mo invisvel.
Fiquei com a comida atravessada na garganta e foi por um triz que no dei uma 
resposta sarcstica. Mas nem tive oportunidade para isso, pois o Jrgen empurrou 
uma segunda mesinha para junto da nossa e olhava a nossa travessa com averso.
- 0 que uma pessoa  obrigada a comer aqui - disse ele, depois serviu-se e j 
no sobrou nada.
Nessa noite decidi dizer-lhe que agora j no eram horas para convites. J 
estvamos naquele hotel h dois dias e ele continuava a fazer o papel do 
generoso anfitrio que me deixava pagar no restaurante. Propus pagar aquele 
jantar a meias entre ns homens, o que no entanto ele no compreendeu. Afinal de 
contas no fora ele quem mandara vir aquilo. No restaurante do hotel afinal de 
contas havia um bufete, decretava ele, que estava includo na meia-penso. No 
via necessidade alguma de desperdiar uma refeio j paga e depois pagar ainda 
outra. Isso seria pagar o dobro por um jantar e, portanto, nem valia a pena 
discuti-lo.
131
Peguei na mo da Jutta que estava em cima do meu joelho, agarrei-a firmemente e 
disse que queramos ir nadar. Teria ido para qualquer parte, desde que me fosse 
embora dali. O Jrgen ficou ofendido e deixou-nos ir. Comprara a minha liberdade 
com um prato de marisco. Se pudesse teria at feito uma oferenda ao deus do mar. 
S no tinha bem a certeza de quem deveria oferecer: Jrgen ou a mulher, ou 
ambos?
Jutta beijou-me, a gua do mar estava morna, a noite escura que nem breu, os 
sentidos revolveram-se e de repente ela sentiu-se mal. E no s. Contorceu-se 
toda na minha frente de modo que a levei o mais depressa possvel para a cama.
Passmos aquela primeira noite livre de amor entre o lavatrio e a retrete. 
Assisti a p firme e de madrugada j no estava bem certo se ainda estava em 
condies de gozar as frias. Ao que parecia faltava-me o stress do dia-a-dia: 
ansiava por voltar para casa e ver-me de novo sentado  secretria, diante de um 
monte de papis, no meu escritrio.
A manh seguinte chegou. Jrgen viajara, tendo deixado um recado num bilhetinho 
mudo que me poderia deixar ficar todo contente. Mas agora as tostas e o ch j 
vinham a caminho e podamos dar-nos por muito felizes que no faltasse nada 
dessas coisas numa antiga colnia inglesa. Mal podia acreditar que o Jrgen 
tivesse desistido de conquistar a minha mulher. Recebi o dia de braos abertos, 
mas a Jutta estava de cama totalmente aniquilada, tremia dos ps  cabea, o 
mdico do hotel veio e deu-lhe algo contra a permanente diarreia, aps o que ela 
comeou lentamente a melhorar.
Fiz as contas pelos dedos. Ainda nos restavam quatro dias. Se at l ela 
melhorasse, ainda podamos gozar de uma noite de amor. Entretanto eu sentia-me 
cada vez mais em baixo, pois os trpicos
no so, como j disse, o clima indicado para mim. 0 pulso abranda, bem como o 
ritmo de vida e, finalmente, tambm a libido.
Na antevspera da nossa partida a Jutta sentiu-se, de sbito, com foras 
suficientes para ousar atirar-se a mim. Tive de me concentrar, ela apercebeu-se 
disso e mandou-me s urtigas. Eu no fiquei propriamente infeliz, pois o 
princpio da tarde, no  exactamente a minha melhor hora do dia. Preciso de um 
pouco mais de ambiente. De preferncia, vinho tinto e velas acesas, em caso de 
emergncia, um peepshow tambm resulta, mas ali estava fora de questo pensar 
nisso.
Portanto lancei-me ao mar. Alguns veraneantes - alemes, evidentemente - viram-
me alugar um catamar. Eu passara as frias da minha juventude no Mar do Norte, 
tinha experincia de vela com qualquer tempo, finalmente podia mostrar o que 
valia. Entretanto, Jutta estendeu-se  sombra de uma palmeira, pediu uma coca-
cola inofensiva para a diarreia e aguardou os acontecimentos.
Eu estava triunfante, saltei para cima daquele instvel catamar e lancei-me  
aventura. Era simples, sabia-o. Demasiado fcil para poder impressionar os que 
tinham ficado em terra firme. Por isso aumentei um pouco o grau de dificuldade. 
Avancei vigorosamente de barlavento e mostrei tudo o que um perito pode fazer 
com um catamar, at ele se virar. Infelizmente caiu directamente sobre o meu 
cccix. Este estalou e pensei que a coluna se estilhaava at ao crebro, mas 
como ainda podia pensar, isso era impossvel. A primeira coisa que me ocorreu 
era que estava a fazer uma triste figura. A segunda, foi que tinha de ver se as 
minhas vrtebras lombares ainda estavam em condies. Exasperado, lembrei-me da 
minha noite de amor ainda por realizar.
Oscilei um pouco as ancas. Doeu-me, no entanto, no estava bem certo. Na gua, 
era difcil de verificar esse tipo de defeitos,
133
132
mas tambm no queria rebocar o catamar a nado para praia. Isso era mais o 
gnero de coisa para um subio fazer. Torturei-me at ao limite mas aquela 
porcaria no se endireitava nem  lei da bala.
Finalmente fui descoberto e socorrido por um monte de msculos de um salva-vidas 
do Mars Vivas. Aquele foi o espectculo mais confrangedor de toda a minha vida 
o que fez com que a minha libido descesse imediatamente at ao nvel zero, se 
no mesmo at ao ponto de congelao.
Jutta encarou-o com indiferena como fazia, de resto, com tudo o mais na sua 
vida - incluindo eu. Tambm no tinha qualquer outra hiptese. Metade da noite 
cuidou do meu traseiro com cubos de gelo, como eu amparara a sua cabea na noite 
anterior. S me dava por feliz por o Jrgen j no ter assistido quele 
lastimvel espectculo. Porventura teria aproveitado a ocasio para convidar a 
Jutta para um jantar especial.
Quando apanhmos o avio de regresso a casa, no tnhamos passado uma nica hora 
a fazer amor. Era mais do que humilhante, mas nenhum de ns tocou no assunto. 
Dez anos antes tambm no fora muito melhor. A me da Jutta acompanhara-nos na 
nossa lua-de-mel e ns tnhamos acabado por nos refugiar na casa de banho do 
comboio. Foi o acto mais desconfortvel de toda a minha vida, mas sempre deu 
algum gozo. Seja como for, nunca o esquecemos.
Por isso percebi o que  que a Jutta queria quando veio ter comigo, com um 
sorriso de soslaio, percorrendo a classe econmica e os passageiros adormecidos.
-Querido -disse ela baixinho e os olhos brilhavam-lhe sedutoramente - na 
primeira classe h uma casa de banho, que  de sonho...
0 Egosta
Um egosta, segundo me explicaram quando era pequena,  uma pessoa que quer tudo 
s para ela. E de certa forma soava a uma coisa abjecta e tambm era essa a 
inteno. Sobretudo, ns raparigas, quando brincvamos na caixa de areia, 
tnhamos de partilhar de boa cara o balde e a p. Os rapazes lutavam 
assanhadamente pela draga de ps e ns oferecamo-nos bolos de areia umas s 
outras. Depois, mais tarde, fui confrontada com Florence Nightingale. Sim  
bonito quando se d a vida pelo outros. Ao mesmo tempo apareceram os primeiros 
homens no horizonte que falavam da "minha casa", do "meu carro", da "minha 
rvore". E, finalmente, tambm do "meu filho". E as mulheres falavam da "nossa 
casa", do "nosso carro", do "nosso filho". 0 homem conduria o apertado automvel 
desportivo, a mulher o automvel familiar com espafo para toda a famlia. Lugar 
para tudo e todos, para fins sociais. Comprei um automvel de dois lugares e 
sentia-me deliciosamente associal- no queria partilhar. Ainda por cima ocupei o 
assento da direita com uma cadeira de bebs, e ento  que j no era mesmo 
possvel dar boleia a ningum. Comprei um cavalo, onde geralmente tambm s se 
senta uma pessoa. E os meus esquis tambm s me transportam a mim. s vetes 
tambm partilho, pois na realidade tambm gosto de partilhar. No entanto s o 
fato quando quero. Partilho o meu dinheiro, o meu carro, a minha vida. Mas atiro 
com a draga de ps  cabeia de quem disser que eu s ali estou para lhe cozinhar 
bolinhos de areia. Aprende-se com a vida. Tambm com os homens.
135
134
DE POUCO SERVE TER BOA FAMA
Bolas de vidro vermelhas, anjinhos de madeira dourada, um cheirinho a canela no 
ar. A me da melhor amiga da minha filha adora as decoraes do Natal. A casa 
dela est festivamente decorada. Sente-se em toda a parte uma alegria 
antecipada.
Joscha, de dois anos, brinca animadamente com o tractor, pois o Pai Natal j no 
vem num tren puxado a renas, no, ele precisa de um tractor para os inmeros 
brinquedos. Selina est sentada com a minha filha Valeska diante do prespio, a 
partir nozes, espalhando cascas por toda a sala. Ns, mes, erguemos os copos de 
vinho para brindar. A filha mais velha despede-se e vai sair  noite.
Ento diz o dono da casa com um largo gesto sobre o grupo de crianas e o menino 
Jesus no prespio:
-  para isto que vocs mulheres ainda precisam de ns. Mas tambm para mais 
nada. Quando houver possibilidade de substituir tambm isso, ento  que ser o 
fim!
A minha filha  que no percebeu l muito bem o que  que pode ser substitudo, 
pois ultimamente tem a sua prpria teoria
139
acerca do nascimento dos filhos: "As mulheres tm os bebs na barriga muito, 
muito pequeninos. Quando querem ter um filho, ele cresce e quando o beb est 
suficientemente grande,  tirado da barriga."
Parece evidente, acho eu, pois isso j ns tivemos uma vez. Ou pelo menos uma 
coisa parecida.
Sento-me ao p das crianas, diante do prespio e conto s duas midas a 
histria de Maria. Elas j a conhecem, graas ao infantrio catlico e ao Padre 
Halter. S o papel de Jos  que ainda  um mistrio para elas. E para mim 
tambm.
A bisav de Valeska tambm se chamava Maria. E o marido dela, Jos. Ali o caso 
era diferente, pois o que este Jos fazia ainda hoje se pode comprovar: a minha 
me tem cinco irms. Todas elas nasceram com pouca diferena de idade. Se a 
minha av tivesse conhecido a minha neta e a teoria dela, talvez tudo tivesse 
corrido de outra maneira.
Possivelmente talvez eu no tivesse sequer nascido. Quem sabe se a minha av, 
depois da sua terceira filha, no teria simplesmente deixado de desejar mais um.
Para mim  bvio que a minha filha  uma revolucionria. Vai mudar o mundo. Como 
Maria, Maria que s deixou crescer um filho. Completamente sozinha, sem a 
interveno de um homem. E que filho!
Mas pouco importa o que este rapaz veio a ser, o que  certo  que sem Maria ele 
no teria existido. Nem toda a nossa religio.
Portanto temos de agradecer tudo isso a uma mulher. E o que faz a nossa 
religio? Ela reza ao ovo em lugar de rezar  galinha.
Maria, a mulher que confirma a teoria da minha filha, afinal mais no  do que a 
Virgem que serve de libi  Igreja Catlica. Isso demonstra-se nas suas 
congneres: que faam bolos e prestem
servios de limpeza das instalaes da comunidade, mas por favor nada de pregar 
do plpito abaixo. No fosse uma delas incitar as pessoas a uma revoluo.
As midas tiraram o Menino Jesus do prespio, Selina faz de Maria, Valeska de 
Menino Jesus, Joscha quer a todo o custo ficar com Jos, quer p-lo a andar de 
tractor. Assim, a me e o filho ficam para trs. Como  verdade, como  verdade.
Maria estava solteira quando ficou grvida. "... e bendito seja o fruto do vosso 
ventre." Digam o que disserem, este fruto surgiu fora do casamento.
No entanto, precisamente a circunstncia de Jesus ter sido concebido por uma 
mulher solteira  festejada como um grande acontecimento por geraes de bons 
cristos. Mas por uma coisa semelhante, teriam expulsado da corte apropria 
filha. Teriam proscrito a prpria noiva. "Desavergonhada" teriam gritado a uma 
mulher nessas condies e teriam negado todo o reconhecimento ao seu bastardo.
Em compensao, correu-se para a igreja e rezou-se ao filho natural de outra, 
escreveram-se bibliotecas inteiras sobre o assunto. S no o fizeram sobre a 
questo de quem realmente o gerou. Isso parece continuar a no interessar a 
ningum. Mas ao longo dos sculos todos se sentiram chamados a defender a moral 
e os costumes.
Apesar disso Maria d o exemplo. Bastava olhar para ele. Um filho sem um pai 
concreto. Quem era esta mulher? H-de ter sido uma mulher forte. Fora do comum. 
E estava disposta a defender a sua vontade e a sua opinio. Um filho natural de 
um ser indefinido.
Por que razo se irritam alguns cristos masculinos hoje com as mulheres que 
recorrem ao banco de esperma? Tambm aqui o pai no tem rosto, no deixa 
qualquer vestgio.  um direito da
mulher dispor da sua barriga.
141
140
Selina trocou as figuras com Valeska. Agora o Menino Jesus d de comer aos 
animais no estbulo. H l alguns carneiros, duas vacas, um burro. Maria pe 
feno fresco na manjedoura, Jos continua a andar de tractor.
- Me,  mesmo bom ter um filho no estbulo? Porque  que
no me tiveste num estbulo?
Valeska teria achado isso maravilhoso. De preferncia, no est
bulo dos cavalos, rodeada pelos seus cavalos preferidos Rocky, Peggy e Florian e 
ela passar directamente da manjedoura para o dorso
dos cavalos. E os trs Reis Magos tambm podiam vir visit-la 
vontade, explicou, todavia no com ouro e pedras preciosas, mas
antes com a Barbie, cujos cabelos ficam violetas quando se molham
e a frmula mgica de nunca mais ter de lavar os dentes. Pelo menos
at se poder deix-los de molho  noite num copo com uma pastilha efervescente, 
o que  muito mais prtico.
Selina decide que em vez da Barbie preferia ter uns sapatos cor de laranja. A 
Barbie j ela tem.
Isso do estbulo no foi de certeza assim to bom, pois tratou-se de uma soluo 
de emergncia, procurei explicar. Um filho chega quando quer, isso no  coisa 
que a me possa decidir. Quando ela se enerva com alguma coisa, talvez venha 
ainda mais depressa.
No Evangelho de Lucas est que, naquele tempo, pouco antes de Maria dar  luz, o 
Imperador Csar Augusto deu ordem para que todos os habitantes do reino se 
inscrevessem nas suas cidades natais a fim de pagarem imposto. Naquele tempo, 
isto aconteceu pela primeira vez, no mandato do governador Quirnio e Jos 
deslocou-se a Belm para cumprir esse dever, com Maria prestes a dar  luz. No 
admira, pois, que o filho nascesse antes do tempo previsto e que no houvesse 
tempo para procurar umas instalaes mais adequadas, no  verdade? Na 
realidade, a culpa de Maria ter dado  luz num estbulo foi da Repartio das 
Finanas.
142
Valeska sabe que tambm ela nasceu oito dias antes do previsto e agora acha 
interessante ter algo em comum com o Menino Jesus. S que o governador j no se 
chama Quirnio.
Eu explico-lhe isso e ela pode partilhar que h um Hans que ambas tambm 
conhecem. Ele rouba sempre  Selina os seixos que ela coleccionou, com tanto 
trabalho, na margem do Bodensee.
- Ests a ver - aproveito, agradecida, o exemplo - ele tambm  um desses. Se 
fores apanhada por uma onda e ficares encharcada, l est ele l atrs,  
espreita,  espera que voltes para terra seca e mal pes a pontinha do teu p em 
terra firme, zs, j ele l est, tira-te o que apanhaste e manda-te de volta 
para a gua.
Selina opina que ele no podia fazer isso e a minha filha decide defender-se.
- Da prxima vez vou salpic-lo todo, ao Hans! At aos ossos! Completamente 
encharcado!
Eu digo que sim, ela vai mudar o mundo!
Agora a Maria deita o Menino Jesus na manjedoura acabada de preparar e depois 
sai com os animais. Elas querem ver a estrela de Natal. Selina tem uma estrela 
de chocolate na mo e os animais conversam sobre ela, como ela  bonita. At 
mesmo Jos se detm no seu tractor. Depois Selina pe a estrela na boca, Joscha 
grita furioso e Valeska, que no gosta de chocolate, pergunta o que  que Maria 
tem de to especial.
- Ser que ela podia fazer bruxedos ou qualquer coisa parecida com o que faz o 
Bibi Blocksberg?
- No, bruxedos no. Se no poderia at ser queimada pelos seguidores da sua 
prpria religio. No, Maria era forte e corajosa. Teve de fugir com o filho, 
pois o rei Herodes a quem tinham dito em segredo que tinha nascido o filho de um 
rei, temia a concorrncia e enviou os seus esbirros atrs de Jesus. Como no 
conseguiam
143
encontrar o rapaz descrito, Herodes, para ficar descansado, mandou matar todos 
os rapazinhos do seu reino.
Isso no tocou Valeska especialmente e Selina at o achou prtico, pois nesse 
caso tambm o seu Hans no lhe poderia roubar mais seixos. E, alm disso,  
mesmo assim! Em todas os contos de fadas h crianas que so apoquentadas, 
abandonadas ou mesmo assassinadas. Isso  evidente para qualquer beb!
No me deixo irritar, pego em Maria e ergo-a bem alto. Os olhos de todas as 
crianas seguem-na.
Maria foi uma mulher to extraordinria, decretei, porque deu ao Mundo um filho 
extraordinrio. Ele era a favor da paz e da justia, pela igualdade entre pobres 
e ricos e morreu por causa disso.
As duas midas so tambm a favor da paz. E igualmente a favor da justia. 
Tambm da igualdade. Havia algumas coisas que gostariam muito de dar aos meninos 
pobres. Coisas que, fosse como fosse, nunca lhes tinham agradado especialmente. 
Eu declaro que elas esto no melhor caminho para se tornarem verdadeiros seres 
humanos.
Mas explico-lhes que tm de oferecer exactamente aquilo de que mais gostarem. S 
assim  que esto a fazer as coisas bem feitas. Valeska protesta. No podemos 
oferecer a outra pessoa o que nos deram de presente, isso tinha eu mesma dito! E 
como todas as coisas dela lhe foram oferecidas, tambm nunca as poderia 
oferecer! Se no seria feio! E alm disso, opina agora a Selina, qualquer um 
podia escrever uma carta ao Pai Natal e ao Menino Jesus. Assim cada um acabaria 
por receber qualquer coisa. Os meninos pobrezinhos s tinham de desejar a coisa 
certa!
Decidi adiar este assunto. Valeska tira-me Maria, Joscha precisa ainda de mais 
um passageiro para o seu tractor. Arranca o Menino Jesus da manjedoura o que 
provoca uma violenta luta com a irm.
144
- E o que  que Deus tem realmente a ver com tudo isto? -
inquiriu Valeska.
- Ele  o pai de Jesus - explico eu. - No  o Jos?
- Ele tambm.
- Aha!
Uma criana com dois pais no  nada de extraordinrio, isso  uma coisa que ela 
v ao observar as outras crianas. At  prtico.
H um para cada situao.
- E depois o que aconteceu com Jesus?
-Bem, houve pessoas que no gostaram de Jesus e que depois
o mataram. Pregado numa cruz.
Valeska conhece esta cruz e retribui.
- Mas porque  que a me dele no impediu isso, se era to
forte como tu dizes? - inquiriu.
Joscha desata aos gritos. Selina, triunfante, segura o Menino
Jesus na mo.
- Porque havia outros mais fortes - disse eu, indicando Selina. - E porque  que 
os pais dele no ajudaram? - Deus estava no cu e Jos j tinha morrido.
Isso agrada a Valeska, pois j tem experincia da morte. 0 av
tambm j morreu.
- Ento Jos tambm estava no cu.
Percebo pela expresso dela, o que est a pensar. Ali esto os dois
no cu e ningum ajuda. E se Deus no quer ajudar o seu prprio filho,
porque  que h-de ajudar outras pessoas?
Isto j me ultrapassa, eu no sei o que responder.
Tambm no compreendo o que aconteceu com a altiva Maria.
A dada altura alguns homens transformaram-na num culto  mater
nidade, petrificando-a numa triste e melanclica esttua da Me
145
de Deus. Pois uma Maria forte e segura de si com certeza que os assustaria. Com 
um filho natural e no gerado por um homem!
0 que isso daria que pensar sobre o poder dos homens. Mas ningum o percebeu. 
At mesmo as mulheres se deixaram levar pela sua prpria igreja. Fiis de 
segunda categoria. E se so aprovadas, ento servem na qualidade de noivas.
Resta esperar que ainda venha outra Maria!
146
Cime
Que efeitos pode provocar o so mento?  verdade. Na realidade, porque rato nos 
deixamos atormentarporsentimentos to destrutivos? Cime, inv ja, desconfianfa. 
Tratar-se- simplesmente de inseguranfa? Dvidas sobre si mesmo? No me sinto  
altura, tenho medo, os outros sero superiores, mais bonitos, mais elegantes, 
mais bem sucedidos, o que quer que s 57`. Que autodestrutivo , de facto, 
descarregar toda a sua inveja sobre os outros. Uma pessoa tambm poderia 
investir essa energia em si mesma, para descobrir qualidades, desenvolver 
aptides, para se desenvolver. Pois o cime no nos devolve um parceiro que nos 
quer deixar e no  com o cime que se diminui o sucesso dos outros. Deixemos 
que os outros s jam ricos e belos, consintamos que o Bill Gates tenha a sua casa 
de sessenta milhes de dlares e reconhefamos a beleza da Cludia Scho`er. A 
felicidade no est  venda, no se conquista  forfa e  leve como uma pluma. 
Com pensamentos mesquinhos, ela simplesmente voa para longe.
147
- Ainda agora no pude mesmo deixar de rir, o nosso filho chega, bate com a 
porta, furioso e jura que desta  que  de vez, que est farto de mulheres!
- Imagina s, que mido este, at agora falava em termos bem diferentes...
- Mas agora parece que pela primeira vez as coisas passaram-se ao contrrio.
- Diz l, Evi, achas que ele levou uma tampa?
- Melhor dizendo, ela deixou-o simplesmente em terra!
- E enfurece-se por causa disso? Mas ele prprio quase fez disso um passatempo, 
quando penso na quantidade de midas que telefonam constantemente para c e a 
quem ele explica benevolentemente que na verdade at foi bonito, mas que na 
realidade, no , bem, a verdadeira, a nica coisa a fazer...
- Pois, mas at aqui, era sempre ele que ficava por cima, tal como o pai...
- Pra l com isso...
151
- Mas agora pelo que se v virou-se o feitio contra o feiticeiro. E foi mesmo a 
doer. Ela explicou-lhe que, segundo me desabafou o teu filho, ela at estaria 
disposta a ir para a cama com ele, mas s por ele ter um corpo jovem e 
musculoso.
- Oh, meu Deus, ela no parece especialmente mimada. Tem de certeza um velho 
chech em casa.  mais velha e experiente que ele, no?
- Bem, sim, em comparao com o Michael, at ...
- De que idade, ento? Os rapazes de dezoito anos gostam
de mulheres de trinta, isso toda a gente sabe. At eu sei isso, por
experincia prpria, ainda me lembro como se fosse ontem, mas
isso foi muito antes de ti, Evi, como  evidente!
- Trinta ela ainda no tem. Mas quase, vinte e seis. - Ora, no  mau de todo...
- 0 Michael tambm no achou. Ao princpio, at ela lhe dar
com os ps. Parece que ela era mesmo no s incrivelmente atraente
como tambm uma loucura, palavras do teu filho, na cama!
- E ento, de que se queixa ele? Mas  magnfico; ou ser que
agora ainda quer casar com ela?
- Est furioso por ter levado com os ps, e ainda por cima na
prpria noite. Sem uma justificao!
- Ela h-de ter tido as suas razes... Talvez eu deva dar umas
dicas ao mido...
- Tu? Bem, como quiseres... mas no  esse o problema. 0 Michael acha que ela 
deve mesmo ter um fraquinho por homens mais velhos e experientes, por causa das 
finanas, dos jantares chiques, das peles, anis e automveis desportivos...
- Ora, ento diz-me c com toda a franqueza, Evi, esses tipos so mesmo uns 
idiotas, comprar amor com dinheiro. Bem, se fosse comigo, no estava para isso. 
E o Michael vai para a cama
com uma tipa dessas? Acho que tenho mesmo de ter uma conversinha sria com 
aquele maroto. Ele julga mesmo que s porque est na flor da idade, pode fazer 
tudo o que lhe apetece.  inacreditvel. Ser que ele tambm lhe deu um 
presente? Porventura alguma coisa comprada com o dinheiro da casa, ou qu?
- Ele achou que neste caso no havia muito para oferecer. Do ponto de vista 
material. Ela tem uma pele de lince, uma pele de raposa, um colar de prolas e 
um belo carro.
- Ai sim?
- Sim e alm disso ela ainda no o deixou dormir em casa dela, mas expulsou-o 
directamente do apartamento.
- Meu Deus, o rapaz deve mesmo ter tido um pssimo desempenho. Isso s lhe pode 
ter feito bem a ele e ao ego dele. Na realidade devamos dar os parabns  
rapariga!
- Foi exactamente isso que eu pensei. No pude deixar de rir, o que fez com que 
o Michael ainda ficasse mais furioso. Depois achei que era oportuno enviar um 
carto de parabns divertido a essa mulher. E pedi a morada ao Michael.
- Sim, e ento?
- Ele disse que ta pedisse. Afinal era a tua namorada!
153
152
Esperana
Todos os que amam se perguntam porque  assim. E todos os que no amam tambm se 
perguntam o mesmo. Depois chega-se  concluso de que no h qualquer explicao 
possvel Aquele que no ama, mas que avalia e gosta do outro, espera que o resto 
acontea. E aquele que ama, espera que as coisas se mantenham assim para sempre. 
A certa altura, acabam por se assemelhar nalguns pontos. Aquele que ama, ama com 
menos ardor, mas aprende a apreciar as qualidades do outro, e aquele que gosta, 
compreende que o outro  digno de amor. Ou ento aquele que amou est desiludido 
com o amor que esmoreceu, pois no vinha acompanhado de nada equivalente e 
aquele que estava apaixonado pelar qualidades, mas que esperava pelo erotismo, 
est igualmente desiludido. Assim invertem-se os papis: aquele que quer 
erotismo e aquele que procura valores espirituais. E a certa altura torna-se 
bvio que um  inseparvel do outro. E a dada altura tambm se torna evidente 
que, com o tempo, no  possvel continuarem juntos. Assim volta-se a amar de 
novo e a ter de novo esperana.
155
I
Era uma vez um pardalito chamado Hans. Hans vivia num canteiro  janela de uma 
velhinha. Sempre que ela punha a mesa, ele dava bicadinhas na janela. Ento ela 
abria a janela a rir, dirigia-lhe algumas palavras amigas e oferecia-lhe 
migalhas.
Hans vivia quer de Vero, quer de Inverno feliz e contente. Um dia a mulher 
esqueceu-se de pr a mesa. Hans deu bicadas, umas atrs das outras, mas nada 
aconteceu. Ento espreitou pelas outras janelas. Finalmente descobriu-a: estava 
inerte, estendida no cho.
Muitos dias passaram e nada aconteceu. Ento, de repente, viu pessoas no 
apartamento, que levaram a mulher com elas. Hans tinha uma fome terrvel, mas 
no tardou muito, uma famlia mudou-se para o apartamento da velhinha. Hans 
ficou feliz, quando ela ps a mesa pela primeira vez. Deu bicadas na janela. 
Ningum o ouviu. Deu bicadas mais fortes e esvoaava para cima e para baixo. Um 
rapaz abriu e enxotou-o. Na manh seguinte a famlia deitou fora o vaso dele e 
Hans teve de se refugiar num nicho da parede.
159
No apartamento havia discusses constantes, o homem e a mulher gritavam um com o 
outro, as crianas faziam-lhe pontaria com uma fisga. Hans cada vez tinha mais 
fome e estava mais triste. Tinha um medo terrvel do prximo Inverno.
Finalmente tomou uma deciso. Queria procurar o Paraso de que a me s vezes 
lhe falara  noite no ninho, quando ele no conseguia adormecer. Hans perguntou 
 vizinha, a pomba, se conhecia o caminho. Mas ela no o conhecia. Nem o 
tentilho, nem o melro. Todos achavam que se tratava apenas de uma histria da 
carochinha da me pardal. Mas o Hans pensava de maneira diferente. Numa 
madrugada voou dali para fora.
No longe da cidade, encontrou um bando de andorinhas a chilrear, empoleiradas 
em fios de alta tenso. Hans cumprimentou-as educadamente e perguntou-lhes pelo 
caminho para o Paraso. Elas riram-se s gargalhadas e explicaram-lhe que nunca 
tinham ido alm de frica, mas que teriam todo o prazer em o levar at  frica 
do Sul. Mas Hans achou que isso seria um desvio. Ele queria ir directamente para 
o Paraso. Portanto levantou de novo voo, prosseguindo o seu caminho.
As montanhas tornaram-se cada vez mais altas, o ar mais fresco. Viu uns pardais 
pousados em cima do telhado de uma cabana de montanha. Eles tambm no o puderam 
ajudar, mas ofereceram-lhe gros e um lugar quente para pernoitar. Assim tomou 
conhecimento que estava nos Alpes a caminho de Itlia.
- Toma cuidado contigo - pipilaram atrs dele, quando levantou voo no dia 
seguinte, de manh cedo.
Ele riu feliz, pois o Sol nascia e banhava as montanhas numa luz avermelhada. 0 
Paraso no podia estar longe de um lugar onde a Terra era to bonita.
Tinha voado durante todo o dia, deixara as montanhas para trs e procurava na 
plancie um lugar para pernoitar, quando um
160
grito o aterrorizou, gelando-lhe as minsculas veias at ao pequeno corao. 
Deteve-se observando a custo o que se passava atravs da luz do crepsculo.  
sua frente havia qualquer coisa que oscilava. Aproximou-se com um bater de asas 
hesitante e viu o que era: redes enormes onde se encontravam lastimosamente 
presos cotovias, pardais e pintarroxos. Na sua luta desesperada para se 
libertarem, cada vez se enredavam mais nas malhas apertadas da rede de algodo, 
at que as suas asas ficavam completamente torcidas.
Horrorizado Hans mantinha-se no ar.
- Foge! - gritou-lhe a cotovia que o alertara.
- Mas eu quero ajudar-vos! - impotente, esvoaava diante deles.
- Tu no nos podes ajudar! Ajuda-te a ti mesmo, voa para l da fronteira!
As asas mal lhe obedeciam, quando, a tremer, prosseguiu o seu caminho. Pouco 
depois, escondeu-se numa rvore, mas no conseguiu dormir.
De manh cedo prosseguiu o seu caminho e s voltou a respirar de novo 
livremente, aliviado, quando uma pequena abelheira lhe confirmou que agora 
estava em Frana. Evitava as cidades e preparava-se para procurar alimento e 
gua em mais um canavial, quando o ar pareceu explodir.  sua volta s se ouviam 
estrondos e assobios e viu alguns patos carem em pleno voo e despenharem-se no 
solo. Morto de medo, Hans procurou fazer-se o mais pequeno possvel e planou sem 
mais batimentos de asas em direco  densa folhagem de um arbusto.
De repente estava rodeado por ces e pessoas que faziam muito barulho e que 
davam constantemente palmadas nos ombros uns dos outros. Hans olhava-os de olhos 
muito abertos e j no se atreveu a sair do seu arbusto antes da madrugada. Mas 
no desistiu de
161
acreditar no Paraso e prosseguiu o seu caminho.
Ao fim de muitos dias chegou ao mar e viu um enorme monstro de ao e ferro que 
se afastava rapidamente da costa. Enormes gaivotas acompanhavam-no. Certamente 
tambm estavam em fuga e tinham encontrado o caminho certo. Hans voou 
rapidamente no seu encalo e conseguiu chegar ao colosso. Parecia-se com a casa 
das muitas janelas onde crescera e Hans sentiu saudades do seu vaso e da senhora 
de idade.
Aproximou-se cautelosamente. Debaixo de uma cadeira de descanso encontrou 
algumas migalhas e pde tomar banho numa pequena poa de gua. No muito longe 
dali encontrou finalmente um pequeno nicho seco para dormir e Hans decidiu ficar 
ali, dormir durante o dia e ir procurar comida  noite e de manh cedo.
Assim foram passando os dias e quando Hans se sentiu em forma reparou como 
estava s. As gaivotas h muito que tinham mudado de rumo, no havia mais nenhum 
pssaro a bordo. Hans no via nem um rato a bordo. Apenas ele ficara naquela 
solitria Arca de No cheia de pessoas. Olhava a imensido do mar cheio de 
tristeza e cada vez menos abandonava o seu pequeno nicho.
Mas veio ento um dia em que, de sbito, viu pssaros. Grandes pssaros negros 
pairavam de asas estendidas acima da sua cabea e outros aproximaram-se mais com 
estranhas rugas nos seus largos narizes curvos. Eram pssaros que ele no 
conhecia. Seguiu-os a uma grande distncia e chegou a umas ilhas de formatos 
estranhos. Uma com uma enrugada crosta negra, as outras de um verde exuberante.
Hans aterrou numa rvore verde e olhou os estranhos pssaros e animais  sua 
volta. Iriam com-lo?
Foi ento que reparou num pequeno tentilho fmea que tinha os olhos fixos nele.
- Quem s tu? - perguntou ela, curiosa, pouco depois.
162
- Hans, o pardal - informou ele, de bom-grado, contente por finalmente poder 
conversar com algum.
- Nunca vimos pardais por aqui - disse ela, acrescentando orgulhosa. - Eu sou um 
tentilho de Darwin e chamo-me Rosio!
- Aha! - Hans acenou com a cabea.
Ficou em silncio por uns instantes. Portanto aqui sou o nico pardal, pensou 
Hans e sentiu medo. Teria de ficar sozinho para sempre?
- Queres ser meu amigo? - perguntou Rosio e ps a cabea  banda.
- Com prazer! - pipilou Hans alegre e apressou-se a pular para junto dela.
Rosio mostrou-lhe a ilha toda e explicou que era uma das ilhas Galpagos. Isso 
no dizia nada a Hans, mas acenou afirmativamente. Depois sobressaltou-se, pois 
acabavam de chegar pessoas, numa lancha, a uma praia que estava cheia de 
gaivotas.
- Elas tm de fugir dali, as pessoas vo mat-las! - pipilou Hans cheio de medo.
Rosio olhou-o sem o compreender. As gaivotas nem se dignaram abrir os olhos e os 
outros animais tambm se deixaram ficar onde estavam. Nada de mal aconteceu.
Hans admirou-se ficando de bico aberto.
- Ser isto o Paraso?
- 0 Paraso? - perplexa Rosio sacudiu a sua cabecinha - Mas isso  completamente 
normal! Anda, vamos ter com os outros, para ver as pessoas! - Mas Hans j 
conhecera pessoas suficientes. Sentiu um peso enorme no corao e Rosio viu, 
surpreendida, o seu novo amigo afastar-se em sentido contrrio, com um apressado 
bater de asas.
163
0 Mundo dos Pequeninos
Vi-o, esse pequeno mundo dos mais pequenos de entre ns, para quem uma gota de 
gua da chuva j  uma ameaa, enquanto ns tememos o dilvio. E quando 
reflectia sobre o mundo dos grandes, sobre tudo o que nos afecta, abala, assusta 
e edifica, vi o mundo dos mais pequenos.-filmes sobre o amor dos caracis, sobre 
o caminho das joaninhas, a vida das formigas, a luta de uma vaca-loira com um 
torro de terra. E vi que mundo se pode construir, quando nos esquecemos do 
nosso mundo de bolsas e aces e carecas epresumidos. E pensei para comigo que 
no  preciso ter-se nem poltica, nem religio, para se ser feliz. Alguns que 
provavelmente no tm a menor ideia do que  tudo isso, do-nos o exemplo. S 
precisamos de nos inclinar.
165
A mensagem escrita era, claramente, um engano. Irene decidiu fingir que no 
percebia e respondeu apenas por achar to bonito e inesperado encontrar no visor 
do telemvel a mensagem: "Amo-te."
"Obrigada, h muito que no oio uma frase to bonita." Escreveu e enviou-a de 
volta para o nmero de telefone desconhecido.
No tardou muito para que o telemvel voltasse a tocar.
"Queira desculpar o equvoco." Leu.
"No foi nenhum equvoco...", escreveu em resposta, procurando a custo as letras 
no pequeno teclado.
"No foi nenhum equvoco, foi talvez um feliz acaso, mas no um equvoco!"
"Foi sim, foi mesmo um duplo equvoco", foi a resposta pouco depois.
Irene ajeitou os culos. Precisava de algum tempo para reflectir na resposta. 
Mas enquanto fazia passar as frases para a frente e para trs, simplesmente no 
lhe ocorria nada.
169
"No percebo...", escreveu, finalmente.
"Digitei o texto e o nmero errados", leu pouco depois, no visor. Como era 
possvel escrever "Amo-te", sem se ter de todo essa
inteno?
Pouco depois, decidiu-se a telefonar para aquele nmero. Uma voz masculina 
respondeu. Irene ficou surpreendida.
- Na verdade pensei que fosse uma mulher - disse. - Sou a outra ponta da sua 
linha...
Ele riu.
-  espantoso, tudo o que estas coisas nos arranjam. Enviei-lhe uma declarao 
de amor a si, quando queria ter desmarcado um encontro com um colega!
A sua voz soou calma e profunda, muito masculina e muito agradvel. Irene 
escutava atentamente. Ento tomou conscincia do que ele dissera.
- Ora realmente no h diferena nenhuma entre dizer "Amo-te" e desmarcar um 
encontro...
Disse-o num tom ligeiramente irnico, pois achava aquilo mais do que estranho.
Ele riu de novo.
- 0 meu telemvel contm frases pr-escritas na memria. J veio assim da 
fbrica. Tem por exemplo: "Por favor telefona-me de volta" ou "Chego mais 
tarde", uma frase de que se pode precisar muitas vezes, de resto. Depois tambm 
tem "Amo-te", muito original, para uma frase feita, admito e finalmente tambm 
tem: "Peo o favor de adiar o nosso encontro." Era isso que eu queria realmente 
enviar. Enganei-me ao escolher a frase.
- Que pena - disse Irene lentamente - foi to bonito de ler.
- Umm - fez silncio por uns instantes. -  um bocado estranho ouvi-la dizer uma 
coisa dessas. Mas  claro que tem toda a razo.  uma frase bonita... quando  
verdade...
170
- Quando  verdade? - perguntou ela; ele soara-lhe hesitante. - Tambm pode ser 
dito assim, simplesmente, sem pensar.
"Eu amo-te, porque..." - .., porque?
porque tens tanto dinheiro, porque s to bonita, porque
tens um corpo to bonito, porque os outros te acham to fantstica,
porque, porque, porque sim.
Irene reflectiu.
- E s "porque te amo", no d? - Isso  que era bonito!
- Isso no me soa nada bem da sua parte! - Acabo de me divorciar.
- Ah - Irene reflectiu. - Lamento. Ou, por outro lado, ser
de lamentar? Quero dizer, voc queria muito divorciar-se?
- Umm. Do ponto de vista dela foi um casamento por conve
nincia, foi a concluso a que chegmos agora. Acreditei no amor
dela e usei-o. Portanto tambm no fui melhor. Agora tivemos de
arcar com as consequncias.
-Pois.
- Mas l por isso, as coisas no melhoraram nem um pouco. - No?
- No. Ela ficou com as crianas e eu agora fiquei para aqui
sozinho!
- Eu tambm estou sozinha. Uma pessoa acostuma-se! - Ai sim?
- Sim, sim!
- Eu no. Acho que as mulheres esto mais preparadas para
viver sozinhas. Eu sinto-me mal. Nunca, em toda a minha vida,
vivi sozinho por um instante que fosse. E sem as crianas ainda 
pior! - A alegria da voz dele, deixava transparecer uma nota de
tristeza. Irene achou que ele parecia claramente desesperado.
171
- E como esto a reagir as crianas?
- Eles tm sete e dez anos. Na verdade, bastante bem. Procurmos ser francos com 
eles. 0 prximo fim-de-semana, vou pass-lo com eles e as prximas frias, 
tambm. Mas apesar disso sinto-me amputado. Uma metade de mim alegra-se com a 
nova vida descomplicada, a outra metade est profundamente triste e desiludida 
por o tempo com ela no ter passado de uma iluso.
- No foi nada. Voc tem filhos, essa  a realidade. No  nenhuma iluso!
Ele suspirou.
- E vai ver que consegue ultrapassar isso. 0 meu vizinho tambm se divorciou h 
pouco tempo e est a passar pelo mesmo. Penso que s tem de aceitar a situao e 
depois h-de encontrar uma sada.
Ele voltou a suspirar.
- Pode ser que tenha razo.
Ficou calado e quando voltou a falar, j parecia mais animado. - Mas afinal o 
que  que eu tinha de estar para aqui a contar
-lhe tudo isto. No queria nada ma-la com toda esta porcaria.
Ainda por cima, no nos conhecendo ns.
- No me maa nada e talvez seja por essa mesma razo. - Que razo?
- Sim, por no nos conhecermos  que voc me conta tudo isso. Se nos 
conhecssemos, falaramos de insignificncias. Seria uma conversa sobre o tempo, 
ou os vizinhos, ou uma coisa do gnero.
Ele riu.
- Pode bem ser que assim seja.
Ficou calado por uns instantes.
- Mas isso no  razo para que no a conhea. Ou talvez,
justamente por causa disso!
172
- Umm
Irene foi com o telemvel at  janela e olhou l para fora. - A distncia 
talvez possa ser um problema - disse ela.
E ouviu uma voz quente concordando, com um misto de uma
gargalhadinha e um pequeno suspiro.
- Pois, de onde  que voc me est a falar? - inquiriu ele,
ento.
- Eu vivo em Munique - disse ela e susteve a respirao. - Eu tambm... - a voz 
dele soava incrdula, depois riu. -
Que coincidncia!
- Com efeito - ela tambm riu. - Ento uma chamada local da rede fixa teria sido 
muito mais apropriada.
- Mas ento no nos teramos conhecido!
- Tem razo!
Irene sempre resistira  ideia de ter um telemvel, mas os amigos
tinham-lhe simplesmente oferecido um pelo ltimo aniversrio.
E, tal como era seu hbito, ps-se ao trabalho e aprendeu todas as funes, 
todavia sem grande esperana de receber um telefonema.
0 telefone fixo costumava manter-se silencioso durante dias a fio. Em que  que 
o telemvel seria diferente.
- Tem alguma coisa que fazer neste momento? A voz dele soava empreendedora.
- Nada de especial.
Ela olhou para o relgio de pulso. Trs da tarde, ainda tinha
uma eternidade pela frente.
- Est muito longe da Casa da Literatura? Por acaso, sabe o
que ?
Irene sentiu o corao bater mais depressa.
- No, quer dizer, sim. Sim sei o que  e no, no estou muito
longe!
173
- Que tal encontrar-nos l s quatro da tarde? Vou reservar uma mesa ao ar 
livre, chego um pouco mais cedo e terei um ramo de flores de Vero pousado em 
cima da mesa. 0 que  que acha?
-  uma ideia maravilhosa!
Quando uma hora depois, Irene se dirigia para a Casa da Literatura, tinha 
vestido um bonito vestido de Vero, com uns audaciosos sapatos vermelhos a 
condizer, um ligeiro chapu de Vero e uma carteira.
Perguntava-se se no lhe deveria ter dito que ia fazer oitenta anos no Outono. 
Mas saboreava esta aventura e no lhe parecia bem que se avaliassem as pessoas 
com base na idade. A voz dele parecera-lhe jovem, calculava que andasse pelos 
quarenta. Mas a dela tambm parecia consideravelmente jovem, pelo menos era o 
que lhe estavam sempre a dizer.
Possivelmente agora ele estava  espera de uma garbosa mulher de trinta anos e 
ficaria desiludido. Mas no se deixou desanimar por esta perspectiva. Em todo o 
caso, tambm havia a possibilidade de a voz dele a levar a julgar que ele tinha 
quarenta e afinal ele j tinha noventa. Preferiria um homem de setenta anos, mas 
agora no queria fazer reflexes inteis. 0 melhor era deixar que as coisas 
acontecessem.
Atravessou a rua num passo ligeiro, observando, ao mesmo tempo, as mesas. Viu-o 
sentado de costas para ela, com as flores em cima da mesa e sentiu o nvel da 
adrenalina a subir rapidamente. Era aquele. No tinha os cabelos grisalhos, mas 
castanhos-escuros, espessos e curtos e umas costas largas sob um ligeiro casaco 
cinzento-claro.
- Sou a Irene Winter - apresentou-se, surgindo ao lado dele. Ele voltou-se para 
ela, ao mesmo tempo que se erguia. - E eu sou o Helmut Jodicke!
174
- 0 meu vizinho!
Eles olharam um para o outro, deram um aperto de mo e desataram os dois a rir.
- Finalmente conhecemo-nos - disse ele por f m e puxou uma cadeira para que ela 
se sentasse. - Isto ultrapassa as raias da loucura! - Sacudiu a cabea. - Acho 
que temos muito que conversar!
175
A Prtica do Surf
Praticar surf e chat desencadeia uma onda de l sonjas. Quer se trate de um Macho 
ou de uma Mimosa, na Internet cada um encontra a pessoa certa que se despe 
mediante um clique. Sem avanfos, sem tampas, sem mtodos anticonceptivos. Muito 
catlico. Que alegria para o Papa. Tambm as conversas funcionam assim. Uma 
pessoa pode comunicar durante horas afio, sem nunca ter de encarar os outros, 
sim, umas verdadeiras centrais de comunicafo, do a.Zo aos velhos blind-date. 
Rapazes que h meses no tinham nenhuma verdadeira namorada, midas, para quem a 
troca de imagens  suficiente, parecem j no ser nenhuma raridade. Tambm  uma 
solufo, temos de compreend-lo, pois,  assim que, mais tarde ou mais cedo, o 
problema da humanidade acabar naturalmente por se resolver. E onde, apesar de 
tudo, as coisas no se resolvem por meio da abstinncia, as pessoas esto sempre 
dispostas a ajudar. Guerra civil na Jugoslvia, h je amigo, amanh inimigo, h je 
bebo um copo contigo, amanh violo a tua mulher. Sim chegmos bem longe. 
Iluminamos a Terra com uma Lua fal ra, como se tivssemos de ver tudo o que nela 
se passa. Melhor no se pode pedir, no se d o caso de se privar algum do seu 
derradeiro sono.
177
UM PEQUENO ESCLARECIMENTO
Ele telefonou-me e perguntou-me por que razo os homens so to diferentes das 
mulheres. Disse-lhe que esta era provavelmente uma questo fundamental, pois  
partindo apenas do conhecimento ou pressuposto de que somos diferentes que se 
baseia todo o padro de comportamento, ritos, medos, preconceitos e atribuio 
de culpas. Ento ele disse-me que nascera no corpo errado, que na realidade se 
sentia como uma mulher e que tambm queria ser uma delas. Reflecti no que 
realmente nos define como mulheres. Lidamos de outra forma com o amor, o poder, 
a humilhao, a dor?
Existem cordeiros indefesos que tudo suportam, que se negam a si mesmos e passam 
toda a vida  sombra de outra pessoa, por esta ser mais forte. Isto passa-se 
independentemente do sexo. Existem pessoas servis entre os homens, porque julgam 
ganhar algo com isso e pelo mesmo motivo tambm as h entre as mulheres.
Ces de fila, que por qualquer razo subiram na vida, seja devido  proteco de 
algum, promoes ou  sua custa, transformam-se
181
muitas vezes em hienas. Querem continuar a subir e sondam qual o caminho a 
seguir: se tm de se rebaixar ou passar por cima de algum. Alm disso no 
querem concorrncia, nem a seu lado, nem abaixo de si, o que significa estar 
alerta e derrubar os outros.
Entre os homens, esta forma do rebaixamento e hierarquia de feras est mais 
fortemente representada do que entre as mulheres, pela simples razo por que a 
espcie masculina nem sempre est disposta a trabalhar sob as ordens de uma 
chefe-loba e, portanto, procuraram antes de mais, como convm, scios do mesmo 
sexo. Apesar disso, verifica-se frequentemente no reino animal que so as fmeas 
as lutadoras. Quem procria, arma-se em valente, mas quem cuida das crias torna-
se extremamente perigoso. Quer se trate de uma loba, ou de um ganso fmea, quer 
se trate da fmea de um rinoceronte ou de uma burra, quem se aproxima demasiado 
das crias com ms intenes, ou simplesmente por incria,  atacado.
Talvez estejamos a investir a nossa energia em causas diferentes. Ela para 
proteger, ele para atacar. Eventualmente o nosso caminho em conjunto deveria ser 
mais a proteger do que a atacar. Mas enquanto existirem lderes polticos ou 
religiosos que transformem os individualistas em lemmings e aproveitem at ao 
fim da sua f e disponibilidade incondicional de luta, o desejo no passar de 
utopia. Pode ento acontecer que se derrubem os que l esto em cima, mas logo a 
seguir, outros lhes sucedem.
Quem est no poder abusa dele. Quem conheceu o poder, agarra-se a ele com unhas 
e dentes, no quer abdicar dele e resiste at ao fim. Alguns, para existirem, 
precisam do que conquistaram, no daquilo que so. Privem-nos da sua posio e 
logo sucumbem, perdem a personalidade, caem numa depresso profunda. A questo 
no se pe se  uma caracterstica prpria dos homens ou das
mulheres, mas antes at que ponto uma pessoa se identifica com a imagem que 
procura dar de si mesmo. At que ponto  que uma pessoa est disposta a lutar 
para ter uma imagem de sucesso, poderosa e influente para os de fora e 
finalmente, que importncia tem para ela possuir um lugar de destaque no parque 
de estacionamento da empresa. Quem desiste de ser humano j est morto. Quer 
seja homem ou mulher. Por isso disse ao meu interlocutor, que no tenha medo de 
ser homem, pois as mulheres tambm no so melhores.
183
182
Ora Adeus!
Dissemos adeus a mil anos de cultura, investzgao e conquistas para passarpara 
um futuro dominado pela tcnica, o progresso e a vontade. Aquilo que j no 
conseguimos obter, exigimo-lo dos outros: ateno, amor, segurana e, se for 
necessrio, com violncia. Agerao de 90 designou-se a si mesma no future 
generation. Em contrapartida, nos anos 70, a palavra de ordem era peace e a 
expresso era make love, not war." 0 que foi feito delas? Na Internet aparece 
bastante apalavra love e  noite, diante do ecr de televiso, comendo pira e 
umas cervejas, vemos apalavra war. De resto, nisso pouco nos distinguimos do que 
ramos h dois mil anos, quando os espectadores se divertiam sentados nas 
arenas, comendo po com vinho a acompanhar, assistindo ao espectculo de pessoas 
a serem dilaceradas por lees.
185
J h dias que a nossa irm mais velha andava to misteriosa, que j nos 
comevamos a irritar imenso. Quando lhe perguntvamos o que se estava realmente 
a passar, ela apenas respondia que ramos demasiado novas para o compreender. 
Isso irritava-nos ainda mais. Ela no precisava de se armar daquela maneira s 
porque j tinha catorze anos. Afinal Anna era s um ano mais nova que ela e eu, 
pelo menos, tambm j tinha quase doze.
As que eram realmente pequenas, eram a Martha, a Sophie e a Clara, que tinham s 
onze, nove e seis anos. Que Clara, que era a mais nova, no pudesse participar 
nessas conversas, era bvio. Mas no que nos dizia respeito, isso era uma 
afronta. Anna e eu decidimos descobrir o segredo dela. Na realidade, isso no 
deveria ser muito dificil, pois ns, as quatro mais velhas, dormamos no mesmo 
quarto e no havia nada que pudssemos esconder por muito tempo umas das outras.
Mas depois apercebemo-nos de que a prpria Heidi estava demasiado agitada para 
poder guardar o segredo s para si. Na ver
189
dade estava mortinha de vontade de o partilhar connosco. E assim foi que nos 
anunciou que nos queria confiar uma descoberta sensacional. Isto , caso 
fssemos merecedoras de semelhante revelao, o que no significava outra coisa 
seno que queria ficar com uma parte da nossa rao de ma do jantar. Tnhamos 
de falar em surdina, pois j nos encontrvamos nos beliches - demasiado cedo, 
para nosso gosto, mas os nossos pais, nesse ponto, eram inflexveis.
s seis em ponto, ao toque dos sinos para a missa vespertina, tnhamos de estar 
em casa e quem se atrasasse era recebido pelo pai. Mal acabava de tocar a ltima 
badalada da igreja vizinha, j ele estava atrs da porta com o basto na mo. E 
no servia de nada ter catorze anos e achar este gesto indigno, ou no. Pouco 
depois das seis, encontrvamo-nos todas sentadas  mesa, de mos lavadas e 
cabelos penteados.
Para a me no era fcil pr todos os dias qualquer coisa na mesa - ainda h 
pouco tinha acabado a Primeira Guerra Mundial, o trabalho e o po escasseavam, 
as ruas estavam cheias de veteranos da guerra que se haviam transformado em 
mendigos. A nossa me conseguia sempre dar uma pequena refeio a cada 
desgraado que nos tocava  porta, apesar do nosso pai estar desempregado.
Mas a nossa me era crente e ao jantar agradecia numa orao a Deus, pelo po do 
dia-a-dia, mesmo quando no havia nada e tnhamos de nos alimentar de cascas de 
batata. Na realidade, tnhamos sempre fome, mas no nos questionvamos sobre 
isso e ramos felizes.
A me passajava e remendava as nossas coisas incansavelmente, sobretudo as que 
j tinham sido usado pelas mais velhas e eram herdadas pelas mais novas e ns 
vamos em cada objecto um brinquedo - quer fosse uma castanha ou uma velha lata 
enferrujada - que com alguns artifcios, era transformado numa boneca e na
190
sua casa. Aborrecimento, no, isso era coisa que no conhecamos - alguma de ns 
tinha sempre uma ideia, afinal de contas ramos seis.
Portanto, tambm vimos logo que Heidi no conseguiria esconder por muito mais 
tempo o seu segredo. E com efeito, quando ns trs mais velhas, a Heidi, a Anna 
e eu, nos encontrmos como que por acaso, sozinhas no quarto, ela no se conteve 
mais - apesar de no ter havido, at aquele momento, qualquer tentativa de 
suborno da nossa parte.
- Vocs j repararam no aspecto do pai?-perguntou, dando-se ares de importante e 
atirando com ambas as tranas para trs das costas.
Eu achei a pergunta uma estupidez.
- 0 pai tem barba - disse eu, laconicamente.
- Que disparate! - e olhou para mim como se eu j no estivesse na posse de 
todas as minhas faculdades. - Da cintura para baixo, quero dizer!
- Da cintura para baixo?
Reflecti. Os olhos de Heidi brilhavam ao retirar debaixo da colcha da cama um 
grosso livro gasto, que nos atirou triunfante aos ps. Apressmo-nos a sentar em 
volta dele, Heidi de costas para a porta, para em ltimo caso, impedir que a 
abrissem.
Agora  que a coisa se tornara realmente excitante. Um livro, ainda por cima, 
com uma capa de couro, era uma raridade.
- Onde o arranjaste? - perguntou Anna, desconfiada. Ela era a medrosa da 
famlia.
- Na estante do pai - sussurrou Heidi e piscou um olho, com um ar de 
conspiradora.
Quase ia tendo um ataque. Da estante do pai! Um pecado mortal. Teramos de nos 
confessar disso no prximo domingo, isto , caso chegssemos l vivas!
191
- Ai, se ele d por isso! - sussurrei, quase sem flego.
- Mas no vai dar por nada - retorquiu Heidi, descontraidamente.
Eu admirava-a, ela era mesmo corajosa. Cruzou as pernas nuas, a fim de poder 
folhear o livro confortavelmente. Eu contemplava-a, ali sentada  minha frente, 
com aquelas pernas todas esfoladas e de olhar determinado, parecia mais um rapaz 
que uma rapariga, apesar do ligeiro vestido feminino e das longas tranas 
castanho-claras. Tinha as bochechas coradas ao abrir o pesado livro.
- Ento e o que tem o pai da cintura para baixo? - inquiri.
0 que h-de ser, perguntava-me, mas no queria parecer ignorante, nem demasiado 
nova. Afinal de contas pertencia ao crculo das mais velhas.
Com preciso, pelos vistos j tinha prtica, Heidi abriu o livro no ponto que 
lhe parecera to sensacional. Debrumo-nos sobre ele, retendo a respirao. A 
figura mostrava uma pessoa, ou melhor, mais precisamente uma pessoa em carne 
viva. Quase me senti mal.
- 0 que  que isso tem de to fantstico? - perguntei.
- Mas que tipo de livro  este? - inquiriu Anna.
- Um livro de medicina - disse Heidi misteriosamente. - Isto  um homem!
Batia com o dedo na pgina. Eu no via diferena nenhuma. E, para ser franca, 
no conseguia distinguir nada, para alm de longas ramificaes vermelhas, umas 
repugnantes entranhas castanhas e os contornos dos ossos. Um homem de ossos com 
carne em cima.
- Um homem  diferente de uma mulher! - acrescentou Heidi, ento, pois as nossas 
expresses obtusas deram-lhe a entender que, de outra forma, no poderia obter o 
to ansiado aplauso da nossa parte.
- Ele no tem mamas, isso j eu sei! - encolhi os ombros.
192
E por causa disso, ela tinha andado durante dias a fazer-se de to importante. 
Que segredo to estpido!
- s mesmo um beb! - Heidi lanou-me um olhar fulminante. - Era aqui que eu me 
estava a referir!
E apontou significativamente para o vestido dela, exactamente no ponto em que as 
pernas se unem.
Agora as coisas j estavam a ficar mais interessantes. Que ali tivesse de 
existir uma diferena fora coisa que nunca me passara pela cabea, mas na 
realidade era bvio. Nos ces e nos gatos tambm havia uma diferena. Mas no 
pai? Agora inclinei-me mais interessada sobre o livro e observei esse ponto. No 
notei nada. Das duas uma ou essa diferena fora suprimida do desenho ou a Heidi 
nos estava a aldrabar para se armar em importante. Era mesmo dela.
- No se v nada aqui! - constatava agora tambm a Anna, pragmaticamente.
Ela enrolara o cabelo entranado em torno da cabea, para no se ver como tinha 
as orelhas a arder. No havia dvida que aquilo era excitante. Provavelmente eu 
tambm mudara de cor.
- Mas isso  uma mulher!
Heidi folheava febrilmente as pginas. Inclinmo-nos to depressa sobre elas que 
chocmos com as cabeas por cima do livro. Podia distinguir-se o peito. Riscas 
vermelhas formavam a ligeira elevao que o desenhador concedera  sua obra. Em 
baixo no havia nada.  claro, no nosso caso tambm no havia muito que ver. 
Perplexas Anna e eu olhvamos para a nossa irm mais velha.
- E agora? - perguntei.
- No  uma coisa fantstica? - retorquiu.
- No! - opinei.
- Se existe alguma coisa que se veja no pai, talvez devssemos verificar se  
verdade... - props Anna.
193
Fiquei sem flego. S de pensar nisso, de certeza que dava direito a irmos parar 
directamente ao Inferno. No haveria confisso que nos valesse.
Ficmos caladas por uns instantes a olhar umas para as outras. 0 tropel do outro 
lado da porta sobressaltou-nos. As nossas irms mais novas vinham a caminho. 
Heidi fechou o livro, levantou-se de um salto e escondeu-o a toda a pressa 
debaixo da colcha da cama dela. E foi por um triz, pois a porta abriu-se de 
rompante e Martha apareceu no umbral da porta.
- Mas o que  que vocs esto a fazer? - Sophie e Clara procuravam passar  
frente dela, espreitando para o quarto.
- Vocs estiveram a discutir sobre o segredo! - incrdula, Martha olhava 
fixamente para ns. - Sem ns!
- Sem ns - ecoaram as mais novas.
- Vocs so to ms! - Ela estava  beira das lgrimas.
Apercebi-me que a catstrofe comeara. Ela iria direitinha l abaixo e 
pespegaria tudo  nossa me e no minuto seguinte a me encontraria o livro. Nem 
dava para imaginar o que sucederia a seguir.
Heidi pareceu pensar no mesmo pois tentou imediatamente acalmar Martha.
- No tem nada a ver contigo - disse ela com um rpido movimento de cabea em 
direco s mais pequenas.
Isso acalmou Martha mas no completamente. Puxou as duas mais novas para dentro, 
fechou a porta e ficou de costas encostadas ao umbral. De certa forma, fazia 
lembrar um gato prestes a dar uni salto.
- A Sophie e a Clara ainda so muito pequenas para isto - procurei explicar em 
surdina.
Mas Clara guinchou logo:
194
- Para que  que somos muito pequenas? No somos nada muito pequenas!
- Temos um livro de medicina onde aparece desenhado como  um homem - confessou 
Heidi finalmente com um olhar de esguelha s mais novas, como se elas fossem os 
advogados de acusao.
- E ento? perguntou Martha e coou-se com o p esquerdo descalo, na perna 
direita.
- No se v nada! - disse eu.
Ela olhou para mim. 0 seu nariz arrebitado enrugou-se um pouco.
- Mas o que  que h para ver?
- Tambm no sabemos - respondeu Anna. - Mas parece que h uma diferena 
qualquer entre os homens e as mulheres - hesitou. - Da cintura para baixo - 
acrescentou, ento, elucidativamente.
A princpio, Martha no disse nada. Depois coou-se energicamente na perna 
esquerda com o dedo grande do p direito.
Por fim opinou:
- E ento porque  que no vamos ver se  verdade?
Todas ficaram caladas. As mais novas, porque no perceberam e ns porque ficmos 
sem flego. A nossa Martha que tem as melhores notas e menes de louvor nas 
aulas de religio e conhecimento bblico, a dizer-nos que devamos simplesmente 
ir verificar. No ficava nada atrs da Anna!
- Sim, mas como? - inquiri.
- Agora! Ele est a dormir - disse ela, como se se tratasse de ir buscar uma 
ma  cave. Mas tinha razo. quela hora o pai dormia sempre a sesta. Era uma 
oportunidade.
- E como? - inquiri eu.
195
- Olhamos por debaixo da camisa de noite dele!
Tive um arrepio. Era uma coisa monstruosa. E alm de mons
truosa, fascinante. Olhar para o nosso pai por debaixo da camisa
de dormir era uma danao. - E a me?
- Est a lavar a roupa em casa da Sr' Oberstudienrat Kleinhofen.
Era uma boa oportunidade, no havia dvida. Sem pensar duas
vezes pusemo-nos a caminho em fila indiana.
- Quem levanta a colcha da cama? - inquiriu Anna. - Eu - disse Martha.
- E quem levanta a camisa de noite? Ningum se ofereceu. - Eu - disse Heidi, por 
fim.
Ela no podia ficar muito atrs de Martha que afinal era trs
anos mais nova, sem sacrificar, a longo prazo, o seu lugar de lder. - E vocs 
tm de ficar caladas que nem uns ratos - adverti
Sophie e Clara, apesar de duvidar do sucesso desta advertncia. E l nos pusemos 
a caminho com pezinhos de l. De ps descal
os, como estvamos todas, apenas se ouvia o roagar dos nos
sos vestidos. Heidi ia  frente. Diante do quarto de cama dos
nossos pais, um santurio onde, at ali, nenhuma de ns se atrevera
a penetrar sem um convite expresso, detivemo-nos de novo a olhar
umas para as outras.
- Nem um piu - voltou a advertir Heidi, antes de rodar cuidadosamente a maaneta 
de ferro da porta.
Esta rangeu. Retivemos a respirao, mas nada aconteceu. Heidi pressionou-a at 
abaixo e abriu a porta lentamente. Esta roou um pouco sobre as pranchas do 
soalho, mas foi um rudo quase imperceptvel. Ficmos como que pregadas ao cho, 
de olhar fixo na cama.
196
Com efeito l estava o nosso pai. Estava tapado com uma ligeira colcha de Vero, 
o que facilitaria o nosso empreendimento. No entanto ningum se atrevia a 
aproximar. Estava um tanto ou quanto assustador com o protector de bigode branco 
que atara ao rosto. Ficmos um pouco ali paradas at que Martha fez um esforo 
notvel e entrou no quarto  frente de Heidi.
E se ele agora abrisse os olhos, pensava eu apavorada e fixei os olhos no quadro 
da Me de Deus que estava por cima da cama, para desviar o curso dos meus 
pensamentos. Ento ocorreu-me que ela nos veria a cometer este acto mpio, a 
Santa Me de Deus com o Menino Jesus ao colo. Apressei-me a desviar o olhar e vi 
a Martha a levantar com todo o cuidado a colcha da cama destapando o corpo do 
meu pai da cintura para baixo. Senti-me mal tal era o medo. Mas depois ainda 
faltava a longa camisa de noite engomada.
Heidi avanou e estendeu a mo. Afastou e remexeu, com todas ns a v-la, 
hipnotizadas. At mesmo as mais novas estavam embasbacadas. Nessa altura o pai 
deixou escapar um forte ronco. Martha retirou a mo assustada e todas ns 
ficmos de olhos fixos como que petrificadas. Mas ele no acordou. Voltou-se um 
pouco a dormir, o que at foi vantajoso para ns, pois voltou-se para ns.
Martha acocorou-se  frente da cama e comeou a desabotoar, descaradamente, a 
longa camisa de noite de baixo para cima. Foi simplesmente uma ideia genial, 
pois assim no tinha de puxar o tecido. Ns estvamos ali como que pregadas ao 
cho. Ela herdara aquela destreza da nossa me que era uma perita em trabalhos 
manuais. Agora aquilo tornara-se-nos muito til. Inclinmo-nos para a frente, 
cheias de expectativa.
Estava quase a chegar ao lugar. Logo saberamos em que  que o pai era to 
diferente de ns da cintura para baixo. Martha desabotoou o boto decisivo, 
afastou o tecido, mas recuou, quando o pai
197
198
voltou a soltar um forte ronco e se ergueu um pouco tonto de sono. Ns ficmos 
como que petrificadas, sem nos mexermos. Ele deixou-se cair, voltando as costas 
a Martha e continuou a dormir. Com os joelhos trmulos, esgueirmo-nos dali para 
fora e fechmos a porta com o mnimo rudo possvel. Depois corremos de volta 
para o nosso quarto.
- Agora, diz-nos l o que viste? - pressionmos Martha que nos parecia 
totalmente inexpressiva.
- No fao ideia do que era aquilo - disse ela finalmente, perplexa.
- Ento, qual era o aspecto? - inquiriu Heidi.
- Era um tanto ou quanto... - e corou - um tanto ou quanto
estranho. Como uma minhoca encolhida.
Olhmos para ela. Ela devia estar a mentir-nos. Estaria o pai
doente? Uma minhoca encolhida? Ali, naquele lugar? Que horror! - A me no vai 
gostar nada disso! - declarei. E as minhas cinco irms acenaram as cabeas, 
dando-me razo.
Cavalos
0 que tm os cavalos que os homens no tenham? Com esta frase j eu quis comear 
um livro, que todavia por falta de tempo, nunca cheguei a escrever. No entanto 
sempre achei interessantes as reaces. - Mas  bvio - diziam os homens, 
meramente atrados pelos atributosfisicos dos garanhes. - Mas  bvio - diziam 
as mulheres, no fazendo qualquer distino entre guas e cavalos castrados, 
castanhos, brancos e pretos. Aqui tratava-se de uma coisa totalmente diferente. 
Esta limitao a pormenores- para as mulheres frequentemente insignflcantes - e 
ao mesmo tempo a medio e contabilizao desses pormenores entre si far parte 
do modo de pensar masculino, que sempre achei estranho e que, em ltima anlise, 
tambm sempre me serviu de inspirao para escrever os meus livros. Consoante a 
modo como os homens se referem ao assunto, acho-o desagradvel, por vetes 
ridculo e, de ve.Z em quando, divertido, como se o comprimento fosse a medida 
de todas as coisas.
199
Tenho mesmo de te escrever, Thommy, pois os pensamentos esto a acabar comigo, 
de tal forma te amo! Esta noite estou acordada e no conseguia adormecer. 0 meu 
corao batia que nem um doido, olhei para o relgio e eram 4.45 h, numa vulgar 
manh de segunda-feira. Ainda sentia o teu cheiro a meu lado, vi a marca da tua 
cabea na almofada, passei a mo pelo lenol vazio e de repente, vi com maior 
clareza do que nunca: amo-te, amo-te, amo-te! No s porque o sexo  bom 
contigo, porque me sinto bem junto de ti, como nunca me senti com ningum antes 
de ti. No apenas porque gosto dos teus beijos, do teu riso e porque a tua voz 
me excita, no, mas tambm porque pensas como eu. E porque tens o aspecto que 
devias. Mal fecho os olhos, vejo-te diante de mim, mal penso em ti, sinto o teu 
cheiro e assim que o silncio se instala, oio-te. E posso sentir-te em cada 
centmetro do meu corpo. Sei qual a sensao, quando me acaricias as costas de 
cima abaixo e vice-versa, quando me beijas o pescoo, e me sopras os cabelinhos 
novos nas fontes, sei qual a sensao quando me tocas
203
1
na coxa e em mim.  a mudana que te torna diferente, o teu
sexto sentido para o aqui e agora, para a boa disposio, a paixo,
o amor. Consegues fazer-me chorar e rir e  isso de que gosto em
ti. s exigente e tens a capacidade de dar, ds e tiras, enches uma
pessoa de mimos e rejeitas, s imprevisvel. Sim, imprevisvel.
 verdade. s vezes no sei como me hei-de comportar contigo.
Uma insignificncia e o teu humor explode. Como o balo da
minha sobrinha que rebentaste h pouco tempo, porque ela te
estava a enervar com a sua tagarelice. Ela chorou lastimosamente, mas isso no 
te comoveu. Pela primeira vez tive a sensao de que eras frio, mas fizeste-me 
uma festinha na cara e eu confiei em ti. At pouco depois, quando atropelaste 
aquele ourio. Eu ter-me-ia desviado, tu nem sequer paraste para verificar se 
ele ainda estava vivo. Explicaste que era demasiado perigoso desviarmo-nos de 
animais na auto-estrada. No  o lugar deles, no tm nada que andar nelas e s 
causam acidentes. No foi fcil para mim dormir contigo naquela noite, digo-to 
agora, porque no to disse naquela altura. No queria estragar nada, pois eras 
mais importante para mim que todos os ourios ou bales vermelhos do mundo. 
Concentrei-me simplesmente em mim mesma e afastei todos os pensamentos e assim 
tambm o ourio desapareceu  luz das velas. Sim, naquela altura ainda gostavas 
do meu romantismo. Ainda me lembro muito bem, quando me murmuraste  luz da lua 
como me achavas atraente. Estvamos de p diante daquele laguinho e a lua cheia 
estava enorme e vermelha por detrs de ti e eu estava convencida que isso era um 
sinal. Um sinal do cu, de que eras a pessoa certa para mim. Finalmente, o homem 
da minha vida, dos meus sonhos. Que tivesses de me provar logo ali o teu amor, 
na capelinha  beira do lago, tambm seria um pouco exagerado, achava eu, mas
havia ali uma bno. 0 amor  divino, pensava eu, c para comigo,
204
que poderia haver que fosse mais forte que o amor? Mas agora que penso melhor 
nisso, foi simplesmente uma coisa de mau gosto. Alis que tivesses sempre de 
procurar lugares, que de qualquer modo, eram estranhos. 0 que tem a luz 
fluorescente de uma casa de banho pblica de to ertico? Ou a paragem do 
autocarro debaixo de chuva torrencial? Porque tiveste de dar logo um murro no 
nariz do tipo que apareceu naquela altura, s porque ele perguntou se tambm se 
podia abrigar ali? Ele tambm s estava  procura de um abrigo e como podia 
adivinhar que naquele preciso momento no estavas com disposio para seres 
simptico? E tambm no est certo que, por causa disso, tivesses ficado furioso 
comigo. Afinal de contas ele no tinha nenhum leno para limpar o sangue. Acho 
que para o aspecto que tinha, ele ainda foi extremamente atencioso. Pelo menos, 
tambm me devolveu o leno. Mas tu mal te controlaste. Sobretudo comigo. Foi 
naquela noite que me deixaste de repente e mais tarde me telefonaste de qualquer 
outro lugar? Julguei que tivesses sentido a necessidade de digerir sozinho a tua 
fria e as tuas oscilaes de humor, mas agora estou convencida que estiveste 
com outra mulher. Tambm lhe beijaste o pescoo e depois sopraste-lhe no stio 
hmido at os pelinhos se levantarem? Tambm lhe beijaste a coxa e mais tarde 
fechaste os olhos como se tivesses entrado no cu? E aquele telefonema h alguns 
dias depois da meia-noite, quando declaraste que algum se tinha enganado - era 
ela? Suplicou-te pelo teu amor? Ou insultou-te porque a enganaste? As tuas 
lgrimas eram verdadeiras, quando morreu o teu av com quem viveste pelo menos 
na tua juventude e em cujo caixo poupaste para no diminuir a tua herana, e 
para quem s puseste msica de cassete, amaste realmente essa pessoa? Sers tu 
realmente capaz de amar? Amas-me, por exemplo, a mim? Ento onde ests s 4.45 
h? 0 teu lenol ainda
205
1
est morno e disseste-me que tinhas de apanhar o primeiro comboio para Hanver. 
Ou ser que s foste para algumas ruas de distncia daqui? Ontem  noite a tua 
camisa cheirava a um perfume desconhecido e a tua lngua estava solta - falavas 
comigo mas no me olhavas nos olhos. Tocaste-me, dormiste comigo, com os olhos 
fechados, mas no eras tu. E eu j no sou eu, pelo menos no aquela que era. De 
momento acordo e tenho uma coisa a dizer-te, Thommy Kralle, vai pentear macacos 
e nunca mais me apareas na frente! Ou melhor dizendo, curto e grosso, para um 
desequilibrado emocional: vai-te lixar, Thommy, acabou tudo!
206
EPLOGO:
S UM HOMEM MORTO...?
i
As minhas experincias com homens mortos so, admito, limitadas. Bem que 
gostaria agora de fazer confidncias e admitir que quem est na minha cave so 
os que no foram bons ou no foram suficientemente bons. Ao dizer que no foram 
bons, estou a querer dizer que no o foram, no sentido de terem sido inteis ou 
at mesmo prejudiciais para as outras pessoas, o meio ambiente e os animais. E 
ao dizer que no foram suficientemente bons, quero dizer que no foram 
suficientemente bons. Que mulher no sabe o que isso quer dizer? Nada pior que o 
tipo que se refere a si mesmo, com o predicado de "super-homenv> e na realidade 
no vale nada. Para a cave com ele.
Apesar disso confesso que  claro que tambm existem tipos, que nunca 
enviaramos para a cave, mesmo que no correspondam  sua "etiqueta de super-
homem". Bill Clinton  um deles, gostamos de o ver vivo, porque foi sempre to 
incrivelmente divertido. Ou o Gerhard Schrder, porque estamos sempre na maior 
expectativa de ver qual vai ser o desenrolar do acontecimentos. Ou tambm
209
o Peter Lustig, porque depois de cada programa, a minha filha aprendeu coisas 
incrveis. E no nos esqueamos de Karl Lagerfeld, porque ningum abana o leque 
to bem como ele. Tambm concederia de boa vontade uma longa vida ao Helmut 
Kohl, pois  sempre fcil retirar o tapete debaixo dos ps de um falhado. Mal o 
chefe da matilha se deita para descansar, logo os lobinhos lhe caem em cima. 
Bravo, seus valorosos heris, ora vo mas  para a cave!
Mas agora onde esto realmente os homens que nos entusiasmam, apesar de estarem 
vivos ou, mais ainda, precisamente porque esto vivos? No cinema,  claro. 
Podemos apaixonar-nos  vontade por eles, sem correr o risco de acabar por os 
ter  perna. Uma pessoa no precisa de perder tempo nem energias com os erros 
desses homens, com quem apenas sonhou, que no passam de questes de dinheiro ou 
divrcios, como quando no se est com disposio para assistir aos programas 
sensacionalistas de televiso ou ler as revistas sociais femininas. Sob o lema 
"no quero ficar com nenhum dos meus prncipes encantados" vive-se s mil 
maravilhas. S que, caso se venha a ter o azar de um dia conhecer um 
pessoalmente, s com a garantia prvia de que na cave existem lugares 
suficientes, isto em caso de emergncia, bem entendido.
Mas no nos deixemos desanimar por causa disto. Existem tantos homens. E cada 
dia que passa h mais. Agora no quero com isto dizer que devamos rejeitar as 
oportunidades de ir para a cama com os homens com quem isso se proporcionar - ao 
contrrio, at vos desafio: demos-lhes uma oportunidade. Ofereamos-lhes a 
igualdade de direitos e deixemo-los continuar a construir estradas, a negociar, 
a lavar automveis, a cortar a relva e a trocar as lmpadas. Pois, com toda a 
sinceridade, de que nos serve um homem morto?
210
NDICE
PRLOGO: EU TAMBM SOU ALGUM!         7
HOMENS NA COZINHA, MULHERES NO SOF         17
DESABROCHAR PRIMAVERIL         31
FRENTE A FRENTE         41
JOGO AMOROSO         51
A VERDADEIRA BNO DA HUMANIDADE         65
AMOR MATERNAL        79
TERNURA... TER... AAA - 0 QU?         91
UM SONHO SOBRE QUATRO RODAS         99
A SEGUNDA LUA DE MEL        123
DE POUCO SERVE TER BOA FAMA         137
CENAS DE UM CASAMENTO         149
ERA UMA VEZ UM PARDALITO         157
A MENSAGEM EXTRAVIADA         167
UM PEQUENO ESCLARECIMENTO         179
SEIS IRMS E UM SEGREDO         187
A CARTA DE AMOR        201
EPILOGO: S UM HOMEM MORTO..?         207
211
I i
